domingo, 20 de janeiro de 2019

A chantagem da General Motors

Politize
Como assim, mente? Mente porque esconde da opinião pública a verdadeira orgia de lucros em que as montadoras estrangeiras sempre viveram no Brasil, mas em especial depois das facilidades fiscais criadas no governo FHC. A própria General Motors, nos anos 90, só conseguiu sair da crise profunda em que viveu na época e que quase a levou à falência nos EUA graças à fartura das remessas de lucros de sua filial brasileira, um cenário irônico e típico da realidade do capitalismo global: a sangria financeira que os países da periferia sofrem nas mãos de suas matrizes, as "perdas internacionais" às quais Leonel Brizola se referia nas eleições de 1989.

A esses respeito, o noticiário que permite resgatar a verdade sobre essa história é farto. Em 2014, por exemplo, para ficarmos numa data situada quando o processo de espoliação do mercado interno brasileiro já estava consolidado, as montadoras foram campeãs de envio de lucros ao exterior, de acordo com a Folha, o que repetia o êxito nas remessas passadas. No ano anterior, a General Motors, segundo a Forbes, havia dobrado seu lucro no mundo inteiro (leia aqui), especialmente em função dos ganhos obtidos em economias dependentes. No caso brasileiro, esse duto de transferência de riqueza totalizou no quinquênio 2009-2014 a estratosférica soma de US$ 33 bilhões, levadas em conta todas as empresas estrangeira instaladas no país. Não é preciso destacar o permanente - e profundo - processo de descapitalização sofrido pela economia brasileira em decorrência dessa dinâmica e, por consequência, as difuculdades de superação dos entraves ao nosso desenvolvimento.

O tamanho da mentira da GM só é maior quando os números falam diretamente sobre os últimos três anos do setor automotivo como um todo e da performance da própria General Motors. No 1o. caso, ainda que registrando recuo, as remessas totalizaram US$ 11 bilhões em 2016, situação que seria superada em 2017, quando o envio dos ganhos remetidos às matrizes triplicaram, segundo o Estadão.

Como se vê, o enunciado neoliberal segundo o qual o fim das amarras do Estado à livre circulação do capital é o instrumento de promoção da riqueza nos países que se abrem para os investimentos externos não passa de um sofisma: a rigor, o que ocorre é justamente o oposto, isto é, a sustentação das economias centrais a partir do fluxo da riqueza gerada justamente nas áreas que mais carecem de recursos. A máxima soa panfletária, mas é real: a riqueza no centro aumenta na mesma razão do crescimento da pobreza na periferia, É o preço que o Brasil paga pela escolha que suas elites fizeram para ficar no poder à revelia dos interesses e sociais e ficar exposto à chantagem que a GM pratica agora com as ameaças anunciadas na Folha.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O projeto de Paulo Guedes: a destruição do Brasil

Paulo Guedes: um desastre
O projeto é o que vem sendo alardeado desde a conspiração que derrubou Dilma Rousseff: o enxugamento do Estado através de um intenso processo de privatização e sua desincompatibilização com as determinações e compromissos constitucionais nas áreas sociais. O paradigma desse modelo parece ser mesmo a mais radical referência que o mundo tem do neoliberalismo: a Escola de Chicago, sob a inspiração de Friedrich Hayek e Milton Friedman, teóricos fundamentalistas da liberação plena das forças mais selvagens do capitalismo. O resultado - um fracasso estrondoso que colocou em estado de falência todas as economias onde foi aplicado (exceto os EUA - é o que se sabe: subtração dos direitos sociais, profunda recessão econômica, desemprego, concentração da renda e desindustrialização em benefício dos bancos (leia Austeridade, história de uma fraude - Outras Palavras).

Na América Latina, o espelho no qual Guedes parece se enxergar é o Chile da sanguinária ditadura de Pinochet regime em torno do qual o agora superministro se acomodou. Como ninguém conseguiu saber durante toda a campanha eleitoral qual era exatamente o projeto econômico de Bolsonaro (ele mesmo deixou claro que não entendia nada do assunto e como também não se dispôs uma única vez sequer a encarar seriamente o debate sobre na esfera midiática), Guedes ganhou um cheque em branco para cometer as barbaridades que entender - com a subserviência do Congresso e com os aplausos dos amedrontados e venais empresários que topam qualquer coisa que os tire da pouca aptidão que têm para lidar com seu próprio negócio). Se esse conjunto de iniciativas se efetivar, o Brasil estará na iminência de regredir ao estágio de um mero enclave dos interesses do capitalismo global.

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Um neandertal solto na política brasileira. Talvez mais do que um...

O neandertal é a mais pura expressão da anomia, talvez o primeiro momento em que ela se manifestou na história humana: a incompreensão da norma civilizada. É isso o que está na razão de seu olhar atônito, sempre alerta, para reprimir estupidamente os que lhe são contrários. A eliminação do outro... mulher, homossexual, comunista...

Não pude evitar que essas características me viessem à mente quando tomei conhecimento das declarações feitas pelo general Mourão num evento do qual ele participou em Uruguaiana, no sul do país, quando - diga-se de passagem - foi muito aplaudido (assista ao vídeo). O general não é um homem versado em leis, não é um trabalhador assalariado, não depende de proventos do INSS para viver sua velhice de militar reformado, não conhece coisa alguma de economia, não tem a menor ideia do peso que a renda do trabalhador tem na consistência do mercado interno brasileiro e no padrão de vida da sociedade. Mesmos em saber nada disso, o candidato a vice na chapa de Bolsonaro, propôs um modelo para o Brasil: a liquidação geral dos direitos e a brutalidade conceitual como justificativa para isso. 

O que neandertaliza Mourão e toda a claque atrasada que apoiou seu discurso é a redução do Brasil a um conjunto de preceitos construídos pelo senso comum - eventualmente o caldo de cultura que anima seu eleitorado: a simplificação grosseira daquilo que é complexo e a sua substituição por uma mitologia que o general empunha sem saber sequer de onde vem. Refiro-me aqui em especial à referência que o general fez ao livro de Ayn Rand - A revolta de Atlas -  como fundamento do seu novo ideário ultraconservador. Rand, uma exilada Russa que adotou os EUA como pátria, produziu uma das raras obras de ficção que enaltece de forma cega o capitalismo liberal tal como ele se desenvolveu naquele país. O livro é ruim, abjeto, pernicioso (leia aqui) concebido como um panfleto que criou em torno de si uma legião de gente mal resolvida e indignada com a dissolução do individualismo na sociedade contemporânea... mas foi preciso que Mourão o colocasse como doutrina para nos envergonhar da sua pouca exigência intelectual.

Não sei os que me leem, mas sinto que parte da imprensa que cobre as falas do general - desautorizadas pelo próprio Bolsonaro, imaginem - está apanhando pelos destaques que vem dando a esse glossário de bobagens. Mas parece que não é o suficiente: o Exército brasileiro deveria ser mais zeloso da imagem que escapa de Mourão e se espalha pela corporação inteira, a começar pelo Clube Militar, palco de lutas nacionalistas históricas na vida do Brasil no pós-guerra. Não será o caso dessa turma observar a dilapidação que o Brasil está sofrendo com a perda da Embraer, do Pré-sal, com os roubos do agro-negócio, com a impunidade de Aécio Neves, de Temer?

Vamos ver o que os brasileiros têm a dizer sobre isso nos turnos das eleições, mas estou convencido de que o resultado vai acabar nos levar de volta ao neolítico. Já é alguma coisa...

Muitas sugestões de leituras: * Apreensão com a força de Bolsonaro entre os militares (Carta Capital) * Filho de Bolsonaro publica em rede social foto de simulação de tortura (Valor Econômico) * Carlos Bolsonaro será denunciado por apologia à tortura (El País) * Nem "politicamente correto" nem Bolsonaro seguram Mourão (Piauí) * General não obedece capitão (Piauí) * Liberdade para mentir e propagar ódio (Extra Classe) * São Paulo, a batalha final da direita (El País) * A máquina de "fake news" nos grupos a favor de Bolsonaro no WhatsApp (El País) * Bolsonaro foi acusado pela ex-mulher de ocultar bens em 2006 e ocultar cofre (Carta Capital).
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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O fator Amoêdo

São ratos antigos esses que nos parecem novos...
Amoêdo, portanto, é uma síntese, uma espécie de mescla do atraso com o moderno, mas esse moderno que preserva o atraso. Um experimento de ponta do neoliberalismo que vê nas eleições a chave de ouro para acabar com o mau-jeito golpista de gerir o país, embora o Banco Itaú tenha deixado sua marca diretamente no Banco Central durante todo o período Temer.

A ameaça, dessa forma, é a do ultraconservadorismo que dispensa a boçalidade de um Bolsonaro ou a despersonalidade de Alckmin. É o perigo do neoliberalismo extremo de que fala a bela matéria do IHU (leia aqui) e anunciado na ansiedade como o "mercado" registrou até agora a mansidão com que a direita se apresenta aos eleitores.

Um prato cheio para o pessoal da Semiótica:
* a construção da candidatura ultraliberal e a desconstrução
 da candidatura popular: Amoêdo (4% nas pesquisas) x Lula/Haddad (41% nas pesquisas)
 no "jornalismo" do Estadão
* Se ampliar um pouco dá para ver melhor os títulos hierarquizados com os atributos
 positivos e negativos das escolhas políticas e ideológicas do conservadorismo do jornal.


Quero voltar a escrever sobre aquela que considero a maior ameaça para o Brasil na hipótese de que Amoêdo seja eleito.

Recomendo estas leituras: * Para Amoêdo, do Novo, a desigualdade no Brasil não é um problema. Ele está errado (The Intercept) * A candidatura emblemática do rentismo e a hipocrisia neoliberal, por Almeida (GGN) *João Amoêdo ganha mais de R$ 1 milhão por mês só na renda fixa - se investe da melhor maneira (InfoMoney) * Itaú cria seu partido e quer disputar a presidência (Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região) * Candidato do Novo incita crime “contra a esquerda” em propaganda eleitoral (The Intercept)Eleições 2018: João Amoêdo: “Se empresas pagam salários distintos para homens e mulheres, Estado não deve interferir” (El País) *A riqueza como regra de campanha (Piauí)O partido Novo que já nasceu velho (The Intercept).

Ilustração da postagem: IHU



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