segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O fator Amoêdo

São ratos antigos esses que nos parecem novos...
Amoêdo, portanto, é uma síntese, uma espécie de mescla do atraso com o moderno, mas esse moderno que preserva o atraso. Um experimento de ponta do neoliberalismo que vê nas eleições a chave de ouro para acabar com o mau-jeito golpista de gerir o país, embora o Banco Itaú tenha deixado sua marca diretamente no Banco Central durante todo o período Temer.

A ameaça, dessa forma, é a do ultraconservadorismo que dispensa a boçalidade de um Bolsonaro ou a despersonalidade de Alckmin. É o perigo do neoliberalismo extremo de que fala a bela matéria do IHU (leia aqui) e anunciado na ansiedade como o "mercado" registrou até agora a mansidão com que a direita se apresenta aos eleitores.

Um prato cheio para o pessoal da Semiótica:
* a construção da candidatura ultraliberal e a desconstrução
 da candidatura popular: Amoêdo (4% nas pesquisas) x Lula/Haddad (41% nas pesquisas)
 no "jornalismo" do Estadão
* Se ampliar um pouco dá para ver melhor os títulos hierarquizados com os atributos
 positivos e negativos das escolhas políticas e ideológicas do conservadorismo do jornal.


Quero voltar a escrever sobre aquela que considero a maior ameaça para o Brasil na hipótese de que Amoêdo seja eleito.

Recomendo estas leituras: * Para Amoêdo, do Novo, a desigualdade no Brasil não é um problema. Ele está errado (The Intercept) * A candidatura emblemática do rentismo e a hipocrisia neoliberal, por Almeida (GGN) *João Amoêdo ganha mais de R$ 1 milhão por mês só na renda fixa - se investe da melhor maneira (InfoMoney) * Itaú cria seu partido e quer disputar a presidência (Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região) * Candidato do Novo incita crime “contra a esquerda” em propaganda eleitoral (The Intercept)Eleições 2018: João Amoêdo: “Se empresas pagam salários distintos para homens e mulheres, Estado não deve interferir” (El País) *A riqueza como regra de campanha (Piauí)O partido Novo que já nasceu velho (The Intercept).

Ilustração da postagem: IHU



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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Onde é a saída?

O clarão ao fundo não indica que o fim do obscurantismo está se aproximando; 
indica o contrário: estamos indo na sua direção para acabar com ele
Não sei dizer qual desses dois grupos - em muitos casos mesclados nas esferas de representação em que atuam - mais ameaça a emancipação do Brasil, mas acredito que o feitio civil do primeiro facilita seu combate na desconstrução de seu modelo econômico neoliberal, fracassado no Brasil em em toda a parte. O apelo ao Estado Mínimo, por exemplo, no nosso caso, traduz-se nessa miséria e carência generalizada que já afeta quase 100 milhões de brasileiros. São os gângsters do impeachment os responsáveis por isso.

Não é a mesma coisa que acontece com os evangélicos. O pessoal da "Bíblia", como a imprensa se encarregou de apelidar, lida com construções simbólicas cuja desmontagem não se dá apenas no campo material, mas no universo ideológico que é instaurado de forma intermitente e sistemática em territórios nos quais não é só a materialidade da existência que importa. A Educação me parece ser o melhor exemplo pois reside em valores que formam a ética do cotidiano o antagonismo simplificador ao qual me referi acima. 

É o que parece documentar a matéria publicada pelo jornal El País - Igrejas evangélicas e internet cumprem função de escola no Brasil popular. No vácuo aberto pela ausência do Estado nas áreas maios pobres do Brasil e no mesmo momento em que se polarizam as discussões, têm sido essas igrejas as protagonistas na oferta de um tipo de orientação pedagógica marcada por um fundamentalismo filosófico que nega a própria função da Escola todo ele construído em torno de argumentos que negam o racionalismo como traço cultural da modernidade, ainda que isso se dê pela tecnologia e pelos instrumentos da escrita e da leitura. O que há de paradoxal é o conteúdo frente ao instrumento...

Acredito que esta é a marca fundamental da expansão do neopentecostalismo no Brasil: uma percepção que remete as contradições sociais a uma esfera de valores ultraconservadores que, no entanto, sugerem - apenas sugerem - o resgate de uma cidadania perdida pela via da negação do sujeito, base da construção do um Estado teocrático ou confessional não só aqui, mas pelo mundo afora, como fica claro nesta outra matéria do El PaísFé evangélica abraça as urnas na América Latina.

Se essas considerações que faço aqui têm fundamento e encontram alguma correspondência na realidade, então o resgate da Democracia no Brasil está interditado ou pelo menos sofre uma retardo que ultrapassa em muito os limites em que se dá o debate eleitoral neste 2018. Reúno abaixo um conjunto de reflexões recolhidas nos últimos três anos - entre notícias dos jornais e sites e artigos acadêmicos que podem nos ajudar em duas coisas: compreender o fenômeno e erradicar nas várias dimensões da esfera pública a ameaça que ele representa para a construção de uma sociedade laica, democrática e de justiça social. 

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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Conspiração

Conspiração da pólvora
Gravura do século XVII de Crispij van de Passe
Bem, a Globo jamais foi punida pelo crime que cometeu, mas o hábito parece ter deixado a boca da família Marinho torta. Nas eleições de 2018 os indícios de que estamos diante de uma articulação de amplas proporções cujo objetivo também é frustrar a vontade popular, como em 1982, são inúmeros, mas duas coisas me parecem unificar a tática usada agora: uma radical transgressão da normas do jornalismo político da velha mídia (que assume sua condição de assessoria de imprensa da direita) e um envolvimento aberto e desavergonhado da defesa dos interesses privados no êxito das candidaturas conservadoras. O fato que parece indicar essa mudança é a verdadeira lição oferecida ao país pelo senador Roberto Jucá nos diálogos mantidos com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Na versão amplamente divulgada pela imprensa, Jucá exibiu o que teria sido o organograma nunca apurado que golpeou o mandado de Dilma Rousseff. Até agora, como nenhuma investigação foi feita em torno do assunto, a suposição é a de que esse esquema tenha sido mantido "com tudo", isto é, com a conivência e participação de forças institucionais, inclusive o STF. O nome disso é conspiração.

Posso estar enganado, mas as eleições deste ano estão passando por um processo de solapamento cujo objetivo é estreitar as margens de legalidade das candidaturas progressistas, embora mantida a legalidade geral do pleito. É um processo sutil, decidido nos tribunais e convalidados pela mídia. 

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Tragédia humanitária: o silêncio criminoso sobre os refugiados

Os refugiados do mundo todo não são os responsáveis pela condição sub-humana em que vivem, mas vítimas de um sistema econômico que concentra a renda global em algumas ilhas de prosperidade e que só são prósperas justamente porque
exploram historicamente os deserdados da África, da Ásia e da América Latina.
Como a questão dos refugiados divide a União EuropéiaPela estatística, não há crise. O número de chegadas é menos da metade do registrado em 2017. Mas o bloco se vê refém de partidos populistas de direita, que tornam o assunto motivo de disputa dentro da UE.

Merkel enfrenta cúpula decisiva em BruxelasLíderes da UE se reúnem para tentar resolver suas diferenças sobre imigração e acolhida de refugiados. Para a chanceler federal alemã, eventual fracasso das negociações pode selar sorte de seu governo

Itália endurece na questão dos refugiados e pressiona UECobranças por mais ajuda são antigas, mas populista Salvini eleva o tom e reforça postura com recusas à atracagem de navios de resgate. Em jogo está a existência do projeto europeu

União Europeia fecha acordo para conter fluxo de imigrantesPara desafogar Itália e Grécia, outros países abrirão centros de acolhida e trâmite de refúgio

UE sela pacto para criação de centros de triagemAs unidades, controladas dentro do bloco, serão destino de imigrantes resgatados no mar. Nesses locais, os prováveis refugiados serão separados dos chamados imigrantes econômicos

União Europeia se entrega à pressão dos populistasSem muita resistência, bloco se curva à vontade de Salvini, Kurz e Orbán e decide fechar suas fronteiras para refugiados. CSU deveria pensar melhor nos riscos do que está fazendo

Milhares protestam contra a política migratória de TrumpManifestantes pedem reunião de 2.300 crianças com seus familiares, presos ao tentar ingressar nos EUA, e também fim da política de linha-dura para imigrantes ilegais

Merkel e ministro do Interior chegam a acordo sobre refugiadosApós reunião em Berlim, chanceler federal e Seehofer anunciam entendimento sobre questão migratória, aliviando a crise que ameaçava derrubar o governo. Ministro, que chegou a oferecer renúncia, diz que ficará no cargo.

* Europa nega abrigo, mas comemora gols dos filhos de imigrantesEntre as equipes do continente ainda no Mundial, todas têm em seus elencos grande número de jogadores de ascendência não europeia.
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