sábado, 2 de dezembro de 2017

Brasil torna-se virtual protetorado da indústria internacional do petróleo

As concessões feitas pelo Brasil às empresas petroleiras, no entanto, têm um agravante: ocorrem em momento de forte alta no preço internacional do barril do petróleo, como mostra o gráfico ao lado. Isso significa que os valores pelos quais nosso país negociou  a permissão para a exploração estrangeira do Pré-sal representam hoje uma perda que se acumula com as isenções aprovadas pelos deputados. 

Essa complexidade que associa dois níveis de transferência de riqueza - a da exploração barata de um produto que será vendido por preços recorde e a da isenção fiscal - é parcialmente analisada em matéria publicada pelo El País: segundo o jornal espanhol, "a escalada do preço do petróleo é particularmente importante para o Brasil, já que o país – que hoje produz 2,6 milhões de barris por dia – tem programada para 2018 novas rodadas de leilões de blocos de exploração do pré-sal, a maior reserva de petróleo brasileira. 

"O aumento do barril significa que todo o petróleo que o país exportar será mais bem pago no mercado internacional, o que melhora a balança comercial do país e impulsiona investimentos e interesse no setor. Se eu quero transformar o Brasil em uma nação petroleira, o aumento do valor da commodity é bem positivo", explica a pesquisadora da FGV Energia, Fernanda Delgado.

"Se por um lado a disparada dos preços dá um novo ânimo ao setor, principalmente a Petrobras, e atrai investidores, a especialista alerta que a mudança pesa no bolso dos consumidores, já que reflete em um aumento da gasolina e dos derivados do petróleo. "Hoje a Petrobras possui uma política distorcida de preços atrelada aos preços internacionais, apesar de produzir praticamente todo o óleo que o país precisa. Se sobe o barril, a gasolina também aumenta", diz Delgado. A alta dos combustíveis acaba se estendendo também por toda a cadeia de produtos que depende dos combustíveis em sua produção ou transporte, pressionando a inflação no país" (leia aqui a matéria do El País)


O paradoxo é claro: a submissão do Brasil aos interesses das empresas globais de petróleo acaba transferindo para a sociedade não apenas a subtração de recursos para o investimento em setores estratégicos, mas onerando ainda mais o próprio consumidor pelo estranho mecanismo posto em prática pela Petrobras: quanto mais o preço do petróleo sobe não é maior o volume de divisas que permitira ao país baratear o custo do seu consumo; ao contrário: quanto maior é o ganho brasileiro no mercado internacional teoricamente menor deveria ser o custo para o consumidor. A condição de protetorado, no entanto, inverte até mesmo a lei da oferta e da procura: não tiramos qualquer vantagem da valorização de um recurso que é nosso; ao contrário: perdemos com isso. É um caso típico da nossa condição colonial e periférica...

Leia ainda: * Petrobras na era Temer: estrangeiras avançam na nova divisão do poder do pré-sal (El País) * Brasil já é um protetorado norte-americano (O cafezinho) * PT ataca no STF decreto sobre privatização de estatais (JOTA) * Enquanto o mundo revê a exploração do petróleo, o Brasil dá subsídio (IHU).
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