quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Donald Trump e o caminho para trás

Um vazio pleno de reacionarismo
que encanta aos medíocres
Seja como for, Trump capitalizou um estado psicológico de alienação e de ressentimento  latente em parcela significativa não só do eleitorado estadunidense, mas também da sociedade de massas competitiva e individualista que a economia de troca vem construindo desde o renascimento do comércio no século XII. No final das contas, Trump resgata como trunfo eleitoral e discursivo justamente aquilo que não deu certo, isto é, um sistema cuja lógica é a desumanização e em cuja defesa é exatamente essa desumanização que precisa ser reafirmada para que continue não dando certo. Não dar certo é a condição fundamental para que ele funcione.

Quem acha que se trata de um jogo de palavras deve perder um pouco de tempo analisando as primeiras iniciativas do novo ocupante da Casa Branca. Se fizer isso, vai perceber que em todas as medidas tomadas por Trump não há uma única cuja lógica não seja a da negação como caminho para a afirmação, tal como ele fazia em seu Apprentice, só que agora em termos econômicos e políticos globais. 

Dou um exemplo: não há nenhuma dúvida de que a possibilidade de um crescimento econômico que não degenere numa luta suicida entre as nações mais ricas do mundo reside na ideia de acordos de complementaridade comercial ou produtiva. É assim com a União Europeia e tentou-se que fosse assim com o acordo Transpacífico. Trump não só denunciou o segundo através do desligamento dos EUA como já adiantou seu apoio ao Brexit, no retrocesso de toda a engenharia capitalista que sustenta a UEE, dois espaços - o Pacífico e a Europa - onde o poderio estadunidense não se realiza senão pela sua negação: no lugar do livre comércio, o protecionismo. Vai acontecer a mesma coisa com o NAFTA e vai ficar evidente que é disso que se trata quando o vergonhoso muro na fronteira com o México for erguido; o mesmo muro que Trump apoia na fronteira entre Israel e os palestinos. 

Não tenho a menor ideia sobre as consequências disso tudo a médio prazo. O que eu percebo é que essa obsessão desarticulada pela reconstrução do poderio dos Estados Unidos num contexto histórico que não é mais o mesmo está deixando no caminho para trás espaços de poder geopolítico que reduzem - e não ampliam - a hegemonia de Washington. Torço para que não dê certo.

Leituras sugeridas: * Donald Trump (resenha do G1 sobre as iniciativas do presidente norteamericano) * Burrice brasileira já se manifesta: Temer quer abrir mão da soberania brasileira sobre a base de Alcântara em favor dos EUA (Opera Mundi) * Marcha das mulheres contra Trump foi o maior protesto da história dos EUA (Estadão) * Trump deve assinar decreto para banir refugiados e construir muro no México (Uol) * Trump cumpre promessa de campanha e inicia cruzada protecionista (El País) * O perigo em tempos de crise é buscarmos um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros (Papa Francisco, El País) * Em entrevista à imprensa britânica, Trump diz que Otan é obsoleta e que Brexit será uma coisa ótima (OM) * A diplomacia na era Trump (Valor Econômico) * Trump representa uma ameaça à imprensa (Cebrián, El País) * A América Profunda, explicação para o fenômeno Trump (Outras Palavras) * Decepção da classe trabalhadora branca explicaria a vitória de Trump (Valor) * Trump assina decreto para construção do muro na fronteira com o México (OM) * O caminho acidentado de uma nova era de nacionalismo (Estadão)
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