domingo, 25 de setembro de 2016

Cresce rejeição às mudanças impostas por Temer ao ensino médio

O cenário em que Temer patina lembra o auditório do saudoso Chacrinha, sem a competência cênica do velho guerreiro: país transforma-se num ambiente de dissolução administrativa, política, legal e moral, um pasto para interesses privados da pior espécie (ilustração: GGN)
O segundo argumento é o da origem "filosófica" da reforma. Ninguém sequer insinua discordar de que toda a educação brasileira precisa ser profundamente modificada. O aspecto sobre o qual não há qualquer unanimidade é "mudar em qual direção"? Os modelos alternativos para o que se faz hoje no país são delicados porque sua adoção apressada pode amarrar gerações inteiras a uma formação escolar descomprometida com o desenvolvimento da sociedade - e a Educação não serve para coisa alguma se não for um dos pilares do desenvolvimento da sociedade. Em razão disso, uma reforma cuja inspiração pedagógica é a instrumentalização do ensino com os objetivos meramente pragmáticos do mercado, da profissionalização, da qualificação profissional, pode produzir gerações de cidadãos impossibilitados de ter no conhecimento a sustentação da sua emancipação. 

Vale a pena, nesse sentido, ler a matéria que Luis Nassif escreveu sobre aquela que é considerada a liderança intelectual da reforma, a ex-axiliar do ministro Paulo Renato à época em que FHC governava o país: Maria Helena de Castro, hoje figura sempre presente nos gabinetes que arquitetaram a mudança que Temer quer impor agora. Para o jornalista, Maria Helena tem, para a educação, uma visão de "gestão de padaria" circunscrita a mecanismos quantitativos de avaliação cujo registro minucioso é a sua verdadeira obsessão. Qualidade na formação do aluno? Para que isso?(leia aqui A visão de padaria de Maria Helena, do MEC).

O terceiro argumento é o aponta para a maldade social que atravessa toda a reforma. Ela consagra e aprofunda um regime de segregação que marca a educação brasileira: o seu viés antidemocrático e excludente. Ao permitir que as escolas possam oferecer duas grades curriculares, a segunda delas com disciplinas opcionais escolhidas de acordo com uma suposta "vocação" profissional do estudante, ela estimula - em especial nos segmentos sociais de menor renda - um abandono da formação educacional ampla - que é o objetivo estruturante da Educação. Ao mesmo tempo, consolida o ensino das elites e da tradicional competência empoderada que dá a elas a formação tradicional. A médio prazo, caso sejam implementadas, as mudanças vão extinguir áreas inteiras do conhecimento do interesse do ensino público. Em breve, o Brasil terá dois tipos de ensino - e não dois regimes administrativos da escola: teremos a Educação Pública e a Educação Privada. Olhando de perto, é um crime.

Sobre esse último argumento, é preciso ler as reflexões de Maria Alice Setúbal, do Centro de Estudos em Pesquisa e Educação (Cenpec) publicadas pelo El País neste domingo (Plano de reforma do ensino pode aumentar desigualdades). Para Maria Alice:

A direção da flexibilidade é importante, é parte do que os jovens estão querendo, dialoga com questões contemporâneas, com diferentes opções, percursos de conhecimento. Não precisa ser igual para todo mundo. Agora, isso é uma parte. Coreia e Finlândia [países citados como referência pelo Governo para a mudança de modelo], por exemplo, estão em outro patamar. Temos que fazer essa flexibilização, mas temos de fazer com outros dados que a Medida Provisória não contempla. Exemplo: 30% dos alunos de ensino médio nas escolas públicas no Brasil estão no curso noturno e isso não é discutido. Há distorção também com alunos mais velhos ali no ensino médio e os ‘nem-nem’ (nem estudam e nem trabalham). São questões que se você não resolve junto com mudança no currículo, você cria um abismo entre alunos e escolas. Algumas escolas vão mudar seu método, mas outras vão ficar atrás. 

Aliás, o Uol deu o sinal da forma como isso vai se manifestar já no próximo ano: os consumidores dos serviços prestados pelas escolas particulares já anteciparam sua preocupação em preservar sua formação de uma inevitável depreciação da qualidade do ensino, caso a mixórdia das grades curriculares os atinja (Na rede particular, alunos têm ressalvas e temem curso "frouxo"). Como se vê, sob qualquer ângulo que esse arremedo de reforma seja visto, seus pressupostos são dramáticos e jogam o ensino médio num vazio pedagógico de forte repercussão a médio e longo prazo.

E os professores?

Ao lado dos estudantes, os professores são atores do processo educacional mais atingidos pelas mudanças anunciadas na MP. No entanto, o ofício de ensinar já vem sendo submetido ao obscurantismo geral que predomina no staff golpista: há em todo o Planalto um sentimento crescente de anti-intelectualismo, uma postura de desprezo pela cultura e pelo conhecimento maior do que nos tempos da ditadura militar. O governo que emergiu da armação que depôs Dilma tem inegavelmente uma composição rude e grosseira, arrivista e cultivadora do ódio social, avesso ao debate de ideias e à reflexão. É um governo de ignorantes. Nessa linha, não são apenas os professores das Humanidades que são vistos como suspeitos de doutrinação ideológica de cunho esquerdizante ou coisa parecida. A inteligência me qualquer área está sendo vista assim, o que inclui o professor em toda a dimensão de suas atividades.

Nesse sentido, só a intenção de se permitir a contratação de professores não diplomados já é suficiente para evidenciar o vezo estúpido da MP, pois que é uma intenção cujos efeitos no sucateamento do ensino será muito forte. Para o Prof. Ricardo Falzetta, do movimento Todos pela Educação, a intenção pode agravar o déficit de professores qualificados uma vez que - segundo ele - a competência docente não se restringe ao conhecimento de determinado assunto, mas ao seu tratamento didático como instrumento de ensino. Professores sem diploma estariam em condições de superar esse desafio? A resposta pode indicar uma ameaça direta à sobrevivência de um campo profissional inteiro.

A leitura da MP deixa claro que o país está diante de uma fraude que vai ser perpetrada sobre um dos setores de maior importância estratégia para a sociedade. O que é pior é o fato de que tenha sido esse um tema em que fica transparente a intenção de manipulá-lo na busca desesperada que o governo faz para adquirir alguma legitimidade que o sustente no poder. É a cultura política do golpe que começar a ganhar identidade em vários setores e da pior maneira possível - na Saúde, no Trabalho, nas Relações Exteriores e... na Educação.

Leia mais: * Muito além do currículo flexível (Carta Educação) * Como é a reforma do ensino médio e quais são as críticas a ela (Nexo) * Secretário do Rio diz que não adotará parte do plano (Uol) * Vamos usar recursos das escolas privadas (Estadão) * Reforma do ensino médio de Temer é desastrosa (GGN) * Reforma de Temer é uma fraude contra a Educação e contra a sociedade brasileira (do blog) * A reforma Alexandre Frota (do blog).
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