quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O projeto de Paulo Guedes: a destruição do Brasil

Paulo Guedes: um desastre
O projeto é o que vem sendo alardeado desde a conspiração que derrubou Dilma Rousseff: o enxugamento do Estado através de um intenso processo de privatização e sua desincompatibilização com as determinações e compromissos constitucionais nas áreas sociais. O paradigma desse modelo parece ser mesmo a mais radical referência que o mundo tem do neoliberalismo: a Escola de Chicago, sob a inspiração de Friedrich Hayek e Milton Friedman, teóricos fundamentalistas da liberação plena das forças mais selvagens do capitalismo. O resultado - um fracasso estrondoso que colocou em estado de falência todas as economias onde foi aplicado (exceto os EUA - é o que se sabe: subtração dos direitos sociais, profunda recessão econômica, desemprego, concentração da renda e desindustrialização em benefício dos bancos (leia Austeridade, história de uma fraude - Outras Palavras).

Na América Latina, o espelho no qual Guedes parece se enxergar é o Chile da sanguinária ditadura de Pinochet regime em torno do qual o agora superministro se acomodou. Como ninguém conseguiu saber durante toda a campanha eleitoral qual era exatamente o projeto econômico de Bolsonaro (ele mesmo deixou claro que não entendia nada do assunto e como também não se dispôs uma única vez sequer a encarar seriamente o debate sobre na esfera midiática), Guedes ganhou um cheque em branco para cometer as barbaridades que entender - com a subserviência do Congresso e com os aplausos dos amedrontados e venais empresários que topam qualquer coisa que os tire da pouca aptidão que têm para lidar com seu próprio negócio). Se esse conjunto de iniciativas se efetivar, o Brasil estará na iminência de regredir ao estágio de um mero enclave dos interesses do capitalismo global.

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Um neandertal solto na política brasileira. Talvez mais do que um...

O neandertal é a mais pura expressão da anomia, talvez o primeiro momento em que ela se manifestou na história humana: a incompreensão da norma civilizada. É isso o que está na razão de seu olhar atônito, sempre alerta, para reprimir estupidamente os que lhe são contrários. A eliminação do outro... mulher, homossexual, comunista...

Não pude evitar que essas características me viessem à mente quando tomei conhecimento das declarações feitas pelo general Mourão num evento do qual ele participou em Uruguaiana, no sul do país, quando - diga-se de passagem - foi muito aplaudido (assista ao vídeo). O general não é um homem versado em leis, não é um trabalhador assalariado, não depende de proventos do INSS para viver sua velhice de militar reformado, não conhece coisa alguma de economia, não tem a menor ideia do peso que a renda do trabalhador tem na consistência do mercado interno brasileiro e no padrão de vida da sociedade. Mesmos em saber nada disso, o candidato a vice na chapa de Bolsonaro, propôs um modelo para o Brasil: a liquidação geral dos direitos e a brutalidade conceitual como justificativa para isso. 

O que neandertaliza Mourão e toda a claque atrasada que apoiou seu discurso é a redução do Brasil a um conjunto de preceitos construídos pelo senso comum - eventualmente o caldo de cultura que anima seu eleitorado: a simplificação grosseira daquilo que é complexo e a sua substituição por uma mitologia que o general empunha sem saber sequer de onde vem. Refiro-me aqui em especial à referência que o general fez ao livro de Ayn Rand - A revolta de Atlas -  como fundamento do seu novo ideário ultraconservador. Rand, uma exilada Russa que adotou os EUA como pátria, produziu uma das raras obras de ficção que enaltece de forma cega o capitalismo liberal tal como ele se desenvolveu naquele país. O livro é ruim, abjeto, pernicioso (leia aqui) concebido como um panfleto que criou em torno de si uma legião de gente mal resolvida e indignada com a dissolução do individualismo na sociedade contemporânea... mas foi preciso que Mourão o colocasse como doutrina para nos envergonhar da sua pouca exigência intelectual.

Não sei os que me leem, mas sinto que parte da imprensa que cobre as falas do general - desautorizadas pelo próprio Bolsonaro, imaginem - está apanhando pelos destaques que vem dando a esse glossário de bobagens. Mas parece que não é o suficiente: o Exército brasileiro deveria ser mais zeloso da imagem que escapa de Mourão e se espalha pela corporação inteira, a começar pelo Clube Militar, palco de lutas nacionalistas históricas na vida do Brasil no pós-guerra. Não será o caso dessa turma observar a dilapidação que o Brasil está sofrendo com a perda da Embraer, do Pré-sal, com os roubos do agro-negócio, com a impunidade de Aécio Neves, de Temer?

Vamos ver o que os brasileiros têm a dizer sobre isso nos turnos das eleições, mas estou convencido de que o resultado vai acabar nos levar de volta ao neolítico. Já é alguma coisa...

Muitas sugestões de leituras: * Apreensão com a força de Bolsonaro entre os militares (Carta Capital) * Filho de Bolsonaro publica em rede social foto de simulação de tortura (Valor Econômico) * Carlos Bolsonaro será denunciado por apologia à tortura (El País) * Nem "politicamente correto" nem Bolsonaro seguram Mourão (Piauí) * General não obedece capitão (Piauí) * Liberdade para mentir e propagar ódio (Extra Classe) * São Paulo, a batalha final da direita (El País) * A máquina de "fake news" nos grupos a favor de Bolsonaro no WhatsApp (El País) * Bolsonaro foi acusado pela ex-mulher de ocultar bens em 2006 e ocultar cofre (Carta Capital).
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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O fator Amoêdo

São ratos antigos esses que nos parecem novos...
Amoêdo, portanto, é uma síntese, uma espécie de mescla do atraso com o moderno, mas esse moderno que preserva o atraso. Um experimento de ponta do neoliberalismo que vê nas eleições a chave de ouro para acabar com o mau-jeito golpista de gerir o país, embora o Banco Itaú tenha deixado sua marca diretamente no Banco Central durante todo o período Temer.

A ameaça, dessa forma, é a do ultraconservadorismo que dispensa a boçalidade de um Bolsonaro ou a despersonalidade de Alckmin. É o perigo do neoliberalismo extremo de que fala a bela matéria do IHU (leia aqui) e anunciado na ansiedade como o "mercado" registrou até agora a mansidão com que a direita se apresenta aos eleitores.

Um prato cheio para o pessoal da Semiótica:
* a construção da candidatura ultraliberal e a desconstrução
 da candidatura popular: Amoêdo (4% nas pesquisas) x Lula/Haddad (41% nas pesquisas)
 no "jornalismo" do Estadão
* Se ampliar um pouco dá para ver melhor os títulos hierarquizados com os atributos
 positivos e negativos das escolhas políticas e ideológicas do conservadorismo do jornal.


Quero voltar a escrever sobre aquela que considero a maior ameaça para o Brasil na hipótese de que Amoêdo seja eleito.

Recomendo estas leituras: * Para Amoêdo, do Novo, a desigualdade no Brasil não é um problema. Ele está errado (The Intercept) * A candidatura emblemática do rentismo e a hipocrisia neoliberal, por Almeida (GGN) *João Amoêdo ganha mais de R$ 1 milhão por mês só na renda fixa - se investe da melhor maneira (InfoMoney) * Itaú cria seu partido e quer disputar a presidência (Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região) * Candidato do Novo incita crime “contra a esquerda” em propaganda eleitoral (The Intercept)Eleições 2018: João Amoêdo: “Se empresas pagam salários distintos para homens e mulheres, Estado não deve interferir” (El País) *A riqueza como regra de campanha (Piauí)O partido Novo que já nasceu velho (The Intercept).

Ilustração da postagem: IHU



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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Onde é a saída?

O clarão ao fundo não indica que o fim do obscurantismo está se aproximando; 
indica o contrário: estamos indo na sua direção para acabar com ele
Não sei dizer qual desses dois grupos - em muitos casos mesclados nas esferas de representação em que atuam - mais ameaça a emancipação do Brasil, mas acredito que o feitio civil do primeiro facilita seu combate na desconstrução de seu modelo econômico neoliberal, fracassado no Brasil em em toda a parte. O apelo ao Estado Mínimo, por exemplo, no nosso caso, traduz-se nessa miséria e carência generalizada que já afeta quase 100 milhões de brasileiros. São os gângsters do impeachment os responsáveis por isso.

Não é a mesma coisa que acontece com os evangélicos. O pessoal da "Bíblia", como a imprensa se encarregou de apelidar, lida com construções simbólicas cuja desmontagem não se dá apenas no campo material, mas no universo ideológico que é instaurado de forma intermitente e sistemática em territórios nos quais não é só a materialidade da existência que importa. A Educação me parece ser o melhor exemplo pois reside em valores que formam a ética do cotidiano o antagonismo simplificador ao qual me referi acima. 

É o que parece documentar a matéria publicada pelo jornal El País - Igrejas evangélicas e internet cumprem função de escola no Brasil popular. No vácuo aberto pela ausência do Estado nas áreas maios pobres do Brasil e no mesmo momento em que se polarizam as discussões, têm sido essas igrejas as protagonistas na oferta de um tipo de orientação pedagógica marcada por um fundamentalismo filosófico que nega a própria função da Escola todo ele construído em torno de argumentos que negam o racionalismo como traço cultural da modernidade, ainda que isso se dê pela tecnologia e pelos instrumentos da escrita e da leitura. O que há de paradoxal é o conteúdo frente ao instrumento...

Acredito que esta é a marca fundamental da expansão do neopentecostalismo no Brasil: uma percepção que remete as contradições sociais a uma esfera de valores ultraconservadores que, no entanto, sugerem - apenas sugerem - o resgate de uma cidadania perdida pela via da negação do sujeito, base da construção do um Estado teocrático ou confessional não só aqui, mas pelo mundo afora, como fica claro nesta outra matéria do El PaísFé evangélica abraça as urnas na América Latina.

Se essas considerações que faço aqui têm fundamento e encontram alguma correspondência na realidade, então o resgate da Democracia no Brasil está interditado ou pelo menos sofre uma retardo que ultrapassa em muito os limites em que se dá o debate eleitoral neste 2018. Reúno abaixo um conjunto de reflexões recolhidas nos últimos três anos - entre notícias dos jornais e sites e artigos acadêmicos que podem nos ajudar em duas coisas: compreender o fenômeno e erradicar nas várias dimensões da esfera pública a ameaça que ele representa para a construção de uma sociedade laica, democrática e de justiça social. 

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