segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ficção & História

Acabo de ler Represálias selvagens, de Peter Gay. O autor é professor em Yale e tem produzido obras que considero fundamentais para a História da Cultura, entre elas Modernismo, O século de Schnitzler, A República de Weimar. Represálias analisa a obra de três escritores - Dickens (ao lado), Flaubert e Mann - a partir do confronto que Gay faz entre a criação literária e aquilo que ele mesmo identifica como a marca hegemônica da produção cultural da modernidade: o princípio da realidade. É com base nesse pressuposto que as obras literárias de maior envergadura narrativa produzidas desde meados do século XIX teriam se transformado em registro, quase um retrato da sociedade em que foram gestadas. Gay aponta para o suporte que esse tipo de ficção representa para o ofício do historiador, quase sempre preocupado com o desenho de um painel fiel das épocas sobre as quais se debruça.

Mas nem tudo é assim tão simples. Represálias selvagens pondera sobre as limitações dessa perspectiva a partir da análise de três obras nas quais o realismo é atravessado pelo excesso de significação do real que seus autores oferecem ao leitor: Casa sombria, de Dickens; Madame Bovary, de Flaubert; e Os Buddenbrook, de Mann. Segundo Gay, os três andaram mais motivados pelo sentimento de vingança - de onde as "represálias" do título da obra - do que apenas pelo registro procedente de sua observação do mundo. É dessa constatação que emerge a observação de Gay: personagens, cenas do cotidiano, temas e histórias criadas pelos três, nada é menor por conta dessa inspiração "selvagem" nem menos representativo do que a Literatura produziu de melhor, mas tudo é, a um só tempo, elemento de turvagem do real; quase um espelho distorcido no qual os historiadores devem acreditar com reservas. Afinal, "o realismo, como diz o autor, não é a realidade".

No entanto, se não é o decalque da realidade, a Literatura pode atingir "verdades mais elevadas (...) das quais os historiadores, prosaicos escavadores de fatos atormentados por documentos, nunca podem nem sequer se aproximar". Em apoio a essa tese, Peter Gay (que é um dos melhores biógrafos de Freud) lembra que o inconsciente foi descoberto pela ficção antes da psicanálise. A vantagem do ficcionista é a sua "perspicácia" psicológica, instrumento que o historiador não pode usar livremente na sua narrativa. Ainda assim, os romancistas escrevem a história? pergunta o autor. Sim, certamente, na medida em que criam caracteres universais, tipos sociais representativos da realidade que observam - elementos que, ao fim, são as marcas da melhor ficção e... da maior contribuição que podem dar à reconstrução do passado.

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Leia aqui a resenha do livro de Peter Gay feita por Sérgio Telles e publicada no suplemento Sabático, do Estadão (10/07/2010).
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