sábado, 31 de julho de 2010

Pesquisadoras falam sobre Jornalismo Cultural: Sylvia Moretzsohn

Sylvia Moretzsohn
Eu não me sinto muito à vontade para tratar especificamente de jornalismo cultural, embora tenda a concordar com você quanto a essa perda de espaço de análise e de crítica em favor da prestação de serviços. Mas isso, embora lamentável, seria previsível, considerando que a lógica de mercado se impõe a todos os "produtos" culturais (e intelectuais, haja visa o que ocorre na academia...).

Penso no mercado literário (ou melhor seria dizer "livreiro") e nessa moda de lançamentos performáticos, como o daquela jovem, diáfana fantasiada de princesa e voluntariamente enclausurada numa caixa transparente montada numa livraria paulistana, um "evento" que causou frisson por desentocar o tutor da moça, avesso a exibições... veja só que ironia. E que jogada de marketing. O que me parece óbvio é que essas performances acabam se sobrepondo ao valor da obra, se é que elas não existem exatamente para "vender" algo que, do contrário, sequer seria publicada.

Desse ponto de vista, a nossa melhor imprensa reage criticamente, talvez devido ao evidente excesso marqueteiro, mas no geral tende a seguir os modismos lançados pela indústria cultural (da qual, aliás, faz parte).

Você sabe que sou particularmente crítica ao elogio automático da tecnologia e dessa proliferação de múltiplas expressões, sobretudo na internet. Especialmente desse suposto "descentramento" que, formalmente, a comunicação em rede permite - mas que é ilusório do ponto de vista que realmente importa, porque a informação de referência, como o nome já diz, continua a ter seu centro. Informação de qualidade, literatura e arte de qualidade, não é nem nunca vai ser qualquer um que produz, não importa o que digam os entusiastas do antiintelectualismo. Do mesmo jeito que não considero viável a transformação de quantidade em qualidade: a proliferação da literatura de auto-ajuda, por exemplo, não conduz nem remotamente ao interesse pela leitura dos bons autores.

Para tratar especificamente da sua formulação final - essa oposição entre "explosão das informações" versus "implosão de significados"-, eu poderia dizer mais propriamente do que vejo no jornalismo de forma geral: uma tendência progressiva à superficialidade, a meu ver fatal nos meios impressos (que, como tantos já comentaram, só fazem sentido, nesses novos tempos, se cultivarem a análise, a informação em profundidade, a grande reportagem), e marca registradíssima nos telejornais, mesmo os da TV paga. É absolutamente irritante ter de engolir esse modelo de jornalismo engraçadinho, em que apresentadores desfilam pelo estúdio e mimetizam uma "conversa" entre si ou com os repórteres através da tela de cristal líquido, todos numa canastrice de constranger qualquer aspirante a uma dessas novelinhas infanto-juvenis do fim de tarde. E não me venham dizer que televisão é assim mesmo, feita para "entreter" (ou alienar, como queiram): o problema não é nem nunca foi o meio, mas o que se faz com ele.

Sobre internet, creio que é ocioso insistir na crítica a essa excitação diante do mais recente aplicativo, que promete tornar a nossa vida mais "divertida". Quem anda pelas ruas das nossas cidades sem fones no ouvido sabe perfeitamente que a vida não se resume a ipods, ipads, smartphones ou outros espelhinhos de índio pós-modernos. E mesmo que pretenda refugirar-se neles, acabará sendo chamado à realidade, quando algum desses pequenos malabaristas de sinal de trânsito mostrar a outra face.

Mas se a gente encarar essa equação em termos absolutos (explosão de informações x implosão de significados), não poderemos vislumbrar qualquer saída, não é? Estaríamos irremediavelmente sufocados por essa avalanche. Nessas horas eu gosto de recordar que aquela famosa expressão, "tudo o que é solido desmancha no ar" é de 1848. Se entrássemos num túnel do tempo talvez pudéssemos ter mais clareza de que o mundo presente sempre foi, para os contemporâneos, objeto de angústia.

Daí que insisto - procurando seguir a trilha desse que formulou a famosa expressão - na necessidade de aprender a lógica desse sistema que exibe a velocidade como um valor em si. Mesmo porque, sabemos que nenhum sistema é monolítico. E que o pensamento crítico é sempre - por definição - minoritário. Mas sempre arruma um jeito de sobreviver. Inclusive no jornalismo e na academia, apesar de tudo. Ou você não teria esse blog...


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2 comentários:

sergio disse...

Prezado Faro!
Muito oportuno o debate. Aproveito para sugerir uma rápida consulta a um blog de crítica cultural (e de mídia) que os estudantes do 2º ano de Jornalismo UEPG estão fazendo... com uma perspectiva experimental em Jornalismo Cultural. A atualização volta neste fim semana.
http://criticadeponta.wordpress.com/

Marcos Paulo da Silva disse...

Olá Prof. Faro,
Muito boa a iniciativa do debate.
Vou acompanhar os desdobramentos das discussões.
Aliás, gostei do novo formato do blog.
Abraços.
Marcos Paulo