sábado, 7 de agosto de 2010

Elizabeth Lorenzotti: simplificação massiva sufoca o Jornalismo Cultural

Elizabeth Lorenzotti
Durante mais de 50 anos o ensaísta, escritor e professor Wilson Martins exerceu a crítica literária nos maiores jornais do país. Ao morrer, no início de 2010, uma pequena matéria no Estadão sequer mencionava sua extensiva participação no Suplemento Literário, criado em 1956 por Antonio Cândido, editado por Décio de Almeida Prado até 1968, e encerrado em 1974. Mas mencionava que ele sempre dizia ter sido o último crítico literário em atuação no país, afirmando: "Talvez tenha sido mesmo".
Em 2005 Martins foi dispensado do caderno semanal Verso e Prosa de O Globo ao mesmo tempo em que o jornalista e poeta Affonso Romano de Sant'Anna. Este, da geração anterior, também foi editor e crítico dos mais importantes cadernos culturais do país a partir da década de 1960.
Talvez possam estas duas demissões - explicadas como cortes de gastos -, ter significado simbolicamente o último suspiro de uma forma de jornalismo cultural já extinta no século XXI. "Não há vida intelectual sem esforço e disciplina", afirmava Décio de Almeida Prado no editorial do primeiro número do Suplemento Literário e Artístico (SL) do Estadão, em outubro de 1956. Também acentuava que o SL não seria jornalístico, mas artístico e literário, como dizia o próprio nome.
Um suplemento criado para suprir a falta de uma revista cultural então, era autônomo em relação ao jornal e não sofria ingerências quaisquer, editoriais ou comerciais. Aliás, seu projeto sublinhava que a publicidade não poderia prejudicar o conteúdo editorial.
Até o advento das grandes transformações políticas, econômicas, sociais e tecnológicas de fins da década de 60, a publicação seguiu essas regras, tornando-se um paradigma do nosso jornalismo cultural. Aliás, o fim da década de 1950 e os anos 1960 poderiam ser classificados como A Era dos Suplementos, que pontificavam em todos os grandes jornais, do Norte ao Sul, do país.
O advento da cultura de massas, a entronização do consumo, a derrocada de projetos nacionais e populares, a crise na educação, a falta de liberdade de expressão compunham o quadro quando terminou a gestão de Décio de Almeida Prado no SL em 1968. Num mundo fragmentado e veloz, cada vez haveria menos espaço para um projeto de reflexão intelectual e de intervenção direta na cultura. Aos poucos, o espaço de veiculação da crítica seria ocupado pela divulgação de produtos da indústria cultural.
A indústria cultural desenvolveu-se lentamente no capitalismo e consolidou-se na sua fase monopolista. Suas mensagens são submetidas à mesma lógica de produção e distribuição das mercadorias. São, portanto, mercadorias como outras, e visam lucro.
Ouvi, certa vez, um editor de caderno cultural chamar de "commodities culturais" as pequenas notas que se encontram em determinada página. E por que não? Se a pauta do jornalismo cultural, como a do jornal em si, é dominada pela agenda, que tem como essência o retorno comercial, não haveria escandâlo algum nessa terminologia, que reflete a realidade em que se realiza o negócio.
A linha dos pensadores da semiologia russa - Iuri Loman, por exemplo - nos ensina que jornalismo pode ter ingredientes de literatura e literatura pode ter ingredientes de jornalismo. Por isso, eles não concordariam com o termo jornalismo literário, ou cultural, mas pura e simplesmente jornalismo.
E como "a sociedade de massa não precisa de cultura, mas de diversão", segundo Hannah Arendt, temos que o jornalismo, e esta sua vertente, o gênero denominado jornalismo cultural, está imerso na mesma homogeneização simplificadora, distante cada vez mais da reflexão crítica.
Não poderia o jornalismo cultural, solitariamente, negar o modelo, já que, ao contrário do antigo Suplemento Literário, é parte dele. Isso não supõe a inexistência de raras exceções, que décadas atrás eram a regra: o pensamento reflexivo, a análise crítica, que demandam lentidão e memória.
Mas para que serve? Esta é a pergunta do pós modernismo utilitarista. Para que serve o jornalismo cultural? Morto o modernismo, que legitima a prática da criação artístrica não utilitária, para que serviria a arte, então?
Há algo muito errado em civilizações que se fazem essa pergunta e a melhor resposta talvez seja: existe para que algo não precise responder à pergunta "para quê?
Como sempre costumo lembrar, arte e cultura não são separadas da vida, não constituem só uma indústria. São legados imemoriais. A mídia tem o dever de rever sua história e abrir mentes e corações para novas experiências que ajudem o homem a se tornar mais humano. Nós, como cidadãos, jornalistas, professores de comunicação, temos enorme responsabilidade nesse processo.
Não creio que a explosão de informações sobre o jornalismo cultural na rede virtual contribua para a tendência à superficialidade do gênero. A superficialidade, a ligeireza, a liquidez, têm raízes no sistema ocidental contemporâneo de cultura, em sua performance segmentadora.
Enquanto isso, como acentuou o filósofo uspiano Paulo Arantes, em maio, em um congresso sobre jornalismo cultural, "no Brasil e no mundo, o jornalisa só tem a função de embalar produtos culturais. Estão condenados à danação do luxo e do patrocínio". E qual seria a saída? Como uma voz de século distante, ele respondeu: "Um jornalista cultural deve tomar posição. É um intelectual precário. Por que não se juntam aos gráficos, aos diagramadores, aos distribuidores?"
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* Jornalista e escritora, autora de Suplemento Literário - Que falta ele faz! (Imprensa Oficial, 2007) e Tinhorão, o Legendário (Imprensa Oficial, 2010). Graduada em Jornalismo e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, é doutoranda em Literatura Brasileira pela FFLCH da USP. Foi professora dos cursos de graduação em Jornalismo e de pós-graduação em Jornalismo Cultural, repórter, redatora e editora de vários jornais e revistas e da imprensa sindical e alternativa.
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