terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pesquisadoras falam sobre Jornalismo Cultural: Dora Santos Silva*

Dora Santos Silva
Ao mesmo tempo que o novo ecossistema dos media despoletou alterações profundas no jornalismo e, logo, no jornalismo cultural, a própria noção de cultura sofreu alterações nos seus significados, com a crescente importância das indústrias culturais e criativas.

Não há dúvida de que o ambiente digital encerra inúmeras potencialidades que, infelizmente, os jornalistas e editores de publicações culturais ainda não aproveitam, pelo menos em Portugal: a hipertextualidade, a interactividade, a capacidade de estruturar a informação por camadas e em bases de dados ou a combinação de som, imagem e texto.

Eu diria que, paralelamente à crescente oferta no ciberespaço de informação cultural, o leitor tem cada vez menos hipótese de aceder a jornalismo cultural de qualidade. Por quê?

1. Ausência de media específicos da cultura on-line

Pelo menos em Portugal, ainda não é possível aceder a um media online que reúna as principais notícias da cultura – quer as hard news quer aqueles com uma componente reflexiva – isto é, que tenha um papel de curador da informação cultural. Os jornais de referência com presença online oferecem três ou quatro notícias de cultural diariamente (sem contar com as listas e resenhas de filmes e exposições, que mais não são do que meros serviços informativos); as centenas de blogues e sites culturais apenas incidem numa ou noutra área da cultura, em particular o cinema e a música, faltando-lhes as componentes de actualidade, aprofundamento e contextualização; as poucas publicações de referência na área da cultura só existem em papel, porque o meio digital ainda não proporciona as mesmas receitas publicitárias; os suplementos dos principais jornais saem apenas uma vez por semana.

Dito isto, o leitor interessado no panorama cultural, do ponto de vista político, económico, artístico e sociológico, depara-se com um desafio: ou deixa as notícias culturais chegarem até si (e aí fica infinitamente prejudicado) ou vai à procura – e aí tem de consultar dezenas de media online, resultando num excesso de informação indicativa, desorganizada e desestruturada.

2. Ausência de estratégia de negócio (e, por isso, pouco investimento na qualidade da informação)

Os media culturais online não vivem do prestígio de serem um media “cultural”. Tal como durante anos proliferou a ideia de que os artistas se alimentam da sua criatividade e não precisam de uma perspectiva de negócio, ainda há em muitos jornalistas culturais a ideia de que o jornalismo que praticam é um verdadeiro serviço público que deveria ser patrocinado, consumido e ajudado naturalmente e que, portanto, não precisam de ser empreendedores. Engano: os jornalistas culturais têm a maior fatia de concorrentes da Web em media não profissionais. As indústrias culturais e criativas são dos temas mais referenciados nas redes sociais e em blogues. Portanto, os media culturais têm precisamente de apostar na informação cultural de qualidade, agir como curadores de informação e, sobretudo, trabalhar a informação, de forma a terem um produto de qualidade que possa atrair leitores e, consequentemente, anunciantes.

3. Pouco investimento publicitário no online

É certo que as receitas online ainda estão longe de conseguirem suportar os custos de uma redacção. Contudo, penso que é uma questão de tempo.

4. O jornalismo online ainda é visto como um parente pobre do jornalismo

Os leitores ainda não confiam totalmente na veracidade, na autenticidade e na qualidade do jornalismo cultural online, por várias razões, mas, sobretudo, pelo crescente carácter híbrido que esta tem vindo a assumir – há blogues e sites culturais que mais não passam de publicidade camuflada ou de press releases.

Por todas estas premissas, e focando-me objectivamente na questão, a fase explosiva que o jornalismo cultural está vivendo na Web é, na minha opinião, aparente: a grande parte da informação cultural que circula nas redes sociais não está tratada, não tem qualquer componente reflexiva e crítica, precisamente um dos traços diferenciadores do jornalismo cultural. Estamos, sim, vivendo, uma fase explosiva de conteúdos culturais ou serviços informativos, não necessariamente jornalísticos. Contudo, penso que alguns media já se aperceberam disso – em especial nos EUA, no Brasil e no Reino Unido – e estão a preencher essa lacuna. Por outro lado, penso que as publicações de nicho e os media independentes têm aqui uma boa oportunidade de vingar.


Em jeito de conclusão, prevejo dois futuros para os media culturais que desejem ter presença online: ou actuam como curadores de informação, isto é, fazem uma selecção dos melhores conteúdos que circulam nas várias plataformas e, consequentemente, exploram essa informação com as potencialidades que a Web oferece ou especializam-se cada vez mais em áreas da cultura, de modo a alcançar públicos muito específicos, sem os custos que uma publicação impressa exigiria.

De qualquer forma, só vejo uma saída para o jornalismo cultural: apostar cada vez mais na qualidade.


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* Dora Santos Silva é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com especialização em Jornalismo e Comunicação e Cultura. Fez o mestrado na mesma instituição na área da Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, onde iniciou a sua investigação sobre jornalismo cultural que culminou já num livro intitulado “Cultura e Jornalismo Cultural: tendências e desafios no contexto das indústrias culturais e criativas”, a ser lançado em breve. Pretende continuar esta linha de investigação num programa de doutoramento.

É jornalista há alguns anos, com um intervalo pelo meio, durante o qual se dedicou ao copywriting e ao guionismo. Hoje, colabora com publicações nacionais e internacionais nas áreas da cultura e criatividade.
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