quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tudo é permitido, menos a desinformação

Tem alguma coisa nesse episódio do Banco Panamericano que me intriga. Quando me deparei com o noticiário de hoje, lembrei logo dos tais "títulos podres" que deram início a crise do fim de 2008 nos Estados Unidos. O fato é conhecido de todos: grandes bancos operando com reservas fictícias, meros ajustes contábeis que escondiam a elevada inadimplência de seus devedores. Quando a coisa  ficou insustentável, foi o que se viu: a maior quebradeira desde o crack de 1929. Até agora a normalidade não foi restaurada, apesar de todo o dinheiro que os governos jogaram no sistema para mantê-lo vivo. O efeito mais perverso dessa crise aconteceu no subsolo: cidadãos poupadores - em especial aqueles que eram (ainda são?) cotistas de fundos de previdência privada vendo suas economias de anos e anos se volatilizarem, como gostam de dizer os economistas.

Lembrei também do papel que a imprensa teve na ocasião. Ela foi o espaço por onde emergiram todas as vozes discordantes da aventura da selvageria do capital financeiro. Foi por aí que ganhou peso a ideia da regulação - nacional ou global - desses agentes do dinheiro especulativo, gestores milionários de uma riqueza que não existia. Qualquer observador mais atento pode deduzir que o que estava em xeque era a própria economia liberal. A rigor, nada que Keynes já não tivesse dito nos anos 30: deixado solto, apenas com as regras "naturais" do mercado, o capital em geral (e o financeiro em particular) transforma-se no oposto daquilo que proclama: um sistemático e entrópico gerador de crises. A regulação do Estado quer evitar justamente isso.


Pois o caso do Banco Panamericano me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro é simples: seriam mesmo as fraudes contábeis feitas por altos funcionários da empresa suficientes para gerar o rombo noticiado? Particularmente, não acredito. O volume de recursos que o tal Fundo Garantidor de Crédito (FGC) está pondo nas mãos de Sílvio Santos é extraordinariamente grande, uma quantia inédita, para que se justifique apenas como um buraco resultado de  safadeza escritural (sem falar na ajuda anterior da Caixa Econômica Federal). Aliás, foi o próprio presidente do FGC quem disse ao Estadão: "não sabemos como as perdas se deram". Quer dizer, o problema é grave e sua origem é desconhecida. Fico imaginando um médico que diga coisa semelhante ao seu paciente que queima de febre... Apesar disso, o socorro ao banco era inevitável pelo temor de um efeito dominó entre instituições médias e pequenas.


O segundo motivo é um pouco mais complexo: a notícia do rombo no Panamericano não tem apenas efeitos externos. Ela tem também consequências óbvias para a própria instituição, resultado da insegurança e do descrédito que se associa à sua imagem. Quem compraria alguma coisa desse banco hoje? Só um maluco para arriscar seu dinheiro - suas economias, sua poupança - em qualquer investimento patrocinado por ele... O resultado já foi sentido: só nesta 4a feira (dia 10 de novembro), as ações do Panamericano sofreram uma perda superior a 30%, pelo menos até a hora em que escrevo este post. A pergunta é inevitável: esse banco mantinha algum tipo de fundo de cotas de pequenos e médios investidores, alguma coisa como um programa de previdência privada baseado na captação de recursos do mercado? Tinha poupança? Carteira de financiamentos em geral? Se a resposta for afirmativa, pode estar acontecendo hoje no Brasil a mesma coisa que aconteceu com os poupadores norteamericanos desde 2008, já que dificilmente ele terá recursos que cubram os depósitos desses cidadãos. Naturalmente, não é preciso imaginar qual o tamanho do estrago se a crise não for apenas do banco de Sílvio Santos.


Procurei as respostas a essas questões no noticiário de hoje. São dúvidas primordiais de quem acompanha a verdadeira farra de crédito fácil, consignado ou não, que o Brasil vive há algum tempo. É razoável imaginar que o episódio de hoje possa ser a ponta de um problema mais profundo - ou 2,5 bilhões não estariam disponíveis de forma tão imediata. Não encontrei um único jornal dos que leio, não ouvi numa única rádio das que ouço, uma única entrevista com qualquer crítico desse modelo de crescimento industrial baseado no endividamento da população, nessa hegemonia irrefletida do capital financeiro, nessa supremacia do consumo conspícuo... Ou seja: numa situação como essa, a única coisa que não pode faltar é a informação sustentada em análises, comentários, versões, entrevistas... e não apenas a coleta das vozes de sempre que insistem em reduzir o complexo ao simples.


A desolação do cidadão que se vê fraudado nas expectativas de ascensão social quando compreende a fragilidade do sistema sobre o qual ele vive já foi matéria de muita literatura, em especial nos Estados Unidos onde volta e meia, de maneira cíclica, as engrenagens da desorganização econômica fazem valer a sua lógica. Lembro de Arthur Miller, em A morte do caixeiro viajante; de John Steinbeck, em As vinhas da ira; do próprio Michael Moore, quando retratou num de seus filmes o escândalo da Enron - uma empresa "sólida" que, do dia para a noite, se revelou um blefe simbólico de todo o sistema. Acho que estamos precisando de uma turma dessas. Ou de um jornalismo mais bem informado.
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Um comentário:

Danilo Thomaz disse...

Faro,

Como jornalista da área de economia e finanças, faço diversas matérias para esclarecer os leitores a respeito das tramoias dos bancos. O que me fica claro, nesses 6 meses de experiência na área, e é bastante óbvio, é que os bancos se valem da falta de informação e disposição para se informar dos clientes para lucrar sobre eles: taxas abusivas, que corroem todo rendimento, são cobradas em fundos de previdência e investimentos; títulos de capitalização são vendidos como produtos de investimentos quando, na verdade, são loterias que corroem o dinheiro aplicado; os juros são aplicados de forma arbitrária e injusta, para que o banco nunca perca dinheiro. A realidade econômica e financeira é complexa, não cabe apenas nas páginas dos jornais. É preciso procurar diferentes fontes de informação e estar atento aos astericos dos bancos, lá estão números de taxas e afins, lá está a verdade, e não no que o gerente diz.