quarta-feira, 25 de maio de 2011

Educação & Mercado

Tudo isso a propósito de dois textos divulgados nesta semana pelo blog Carta Maior. O primeiro deles é de autoria de Mariano Kestelboim (leia aqui) para quem "a doutrina neoliberal enjaulou o livre pensamento da política econômica através do estudo criptografado de uma pretensa ciência exata". Diz o economista que a propaganda liberal resume-se a um conjunto de abstrações que simplificam de tal forma o mundo real que colocou o pensamento acadêmico em dívida: a universidade forma economistas "que não serão capazes de perceber as relações de poder", contestação que também veio à tona na matéria do Valor citada acima.

O outro texto é um manifesto feito pelo grupo Economia Política do Centro de Estudos para a Mudança Social e por integrantes do Agrupamento Unidade de Graduados de Economia, ambos da Argentina (leia  aqui). Os argumentos são parecidos, ainda que com tonalidade diversa: os principais cursos de economia do país platino continuam enfatizando que a Argentina deve especializar-se na produção de matérias-primas e na importação de manufaturados, abandonando com isso a pretensão "irreal" de tornar-se uma potência industrial disponível para os interesses do capital especulativo internacional. Nasce daí a demanda principal dos autores: uma revisão em profundidade do ensino de Economia sob novas bases, as mesmas que vêm sendo exigidas desde 2009.

Penso que não são apenas os cursos de Economia que precisam de uma revisão dessa natureza, já que essa percepção de que à Universidade está reservado o papel de formadora de mão-de-obra operacional tem se espalhado por diversas áreas do conhecimento de forma paralela à funcionalidade da Educação concebida como commodity. A rigor, são duas linhas de força que atuam numa mesma direção: o esvaziamento da energia reflexiva do pensamento acadêmico e a sua substituição pela prática, pela aplicação mimética daquilo que vem do mercado. O resultado me parece o pior possível porque essa perda de capacidade analítica dos quadros que se dirigem às diversas atividades profissionais desemboca num sistemático vazio de inventividade, eventualmente com sintomas de paralisia para a própria necessidade de inovação de que o sistema econômico, as práticas sociais e políticas necessitam.

Ainda quero voltar ao tema...
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Sugestão de leitura:

* Sistema financeiro tem elite assalariada, com mais diploma e renda (Carta Maior). 

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