domingo, 21 de agosto de 2011

João Goulart, uma biografia (Jorge Ferreira)

Falta muito ainda para que a vida de João Goulart seja contada em toda a sua grandeza, embora seja possível perceber uma bibliografia crescente em torno de seu governo ou em torno de questões que o envolveram durante o tempo em que esteve na ponta do processo político brasileiro. Mas uma obra que desfaça os mitos construídos artificialmente sobre sua história pessoal, com fortes desdobramentos nas campanhas conservadoras das quais foi vítima, essa obra só agora é começa a ser escrita, a exemplo do estudo de Jorge Ferreira lançado pela Civilização Brasileira neste ano de 2011.

Ferreira é professor de História do Brasil da Federal Fluminense, pesquisador reconhecido e autor de outros estudos voltados para o período do populismo, elementos que o tornam uma voz autorizada para tratar de Jango. O livro da Civilização, no entanto, não tem aquilo que se pode chamar de perfil acadêmico, isto é, não se constitui em obra inteiramente referenciada pela historiografia. Seu terreno parecer ser mesmo o do relato biográfico estrito, com uma forte coloração de entusiasmo pela personalidade do biografado, que naturalmente passa pela obra sobre   as contradições que representou e que viveu. Ainda assim, no entanto, o trabalho de Ferreira dá conta preliminar do exercício de exorcismo de Goulart, fundamental para o entendimento do período que antecede sua queda em 1964.

De fato, Jango correu o risco de ver colada à sua história pessoal a imagem da incompetência política e do fraco exercício da autoridade que, quase por obra de circunstâncias fortuitas, caiu-lhe nos ombros em consequência de sua proximidade com Getúlio Vargas. Pelo menos foi essa a armadura simbólica que as elites brasileiras, em especial aquelas que manipularam a grande imprensa nos anos do pós-guerra, forçaram-no a vestir. Não foi raro o professor de História que, cercado pelos mitos das campanhas contra Vargas, acabou reproduzindo todo o preconceito que o trabalhismo, o nacionalismo e o polulismo social-democrata fizeram emergir notadamente depois de 1954. O livro de Jorge Ferreira desfaz essa visão, mostrando um João Goulart engajado nas lutas políticas de seu tempo e com um nível de compromisso social que destoava das camadas agrárias das quais se originava, fato que o levou a pagar o preço da intolerância radical daqueles que romperam a ordem constitucional em 64.

O autor da biografia de Jango, ainda que em alguns momentos exagere na lógica descritiva dos fatos com um excesso de documentação que torna o texto cansativo e desnecessariamente prolongado, oferece à historiografia contemporânea do Brasil farto material que extrapola os limites da personalidade política do Presidente e nos situa na conjuntura mais ampla da emergência dos movimentos sociais obscurecidos no cenário nacional pela dinâmica do populismo, do qual Goulart foi um dos principais representantes.
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João Goulart, uma biografia. Jorge Ferreira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
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