domingo, 21 de agosto de 2011

Wall Street. O dinheiro nunca dorme... (Oliver Stone)

Minha primeira impressão: Oliver Stone não é exatamente um cineasta que pode se transformar em porta-voz de todo o descontentamento que os Estados Unidos acumulam com suas práticas econômicas, e esta continuação de Wall Street, poder e cobiça (1987) parece deixar isso muito claro. Em primeiro lugar, pela perda do impulso crítico original que me parece ter inspirado o primeiro filme; em segundo e como consequência, pela negociação que o diretor faz entre o caráter de seus personagens - em especial Gordon Gekko (Michael Douglas) - e a crise econômica de 2008, mais grave e mais reveladora da selvageria capitalista do que a que foi registrada no filme anterior.

Minha segunda impressão: se não é o diretor radical que a sociedade estadunidense está esperando, ainda mais agora com esse crescimento espantoso do fundamentalismo conservador, Stone não consegue escapar da armadilha ideológica que apanha quase toda a produção cultural e simbólica do país: a remissão do pecado ao final de toda a trama e essa determinação característica da indústria cinematográfica - a derrota da vilania pelo espírito cristão. No primeiro filme, Gekko pelo menos é punido pelas trapaças que faz em suas atividades de mega-investidor; neste de agora, depois de cumprir oito anos de sentença, o personagem de Michael Douglas continua contaminado pelo impulso primitivo da cobiça, mas caminha para uma espécie de epifania que lhe é permitida pela filha, pelo futuro genro, pelo neto e por uma incontornável disposição em praticar o bem final que o redime e acaba por colocar tudo no seu devido lugar.

Minha terceira impressão: para fazer essa operação do eterno retorno do seu herói, Stone não machucou apenas o roteiro, mas os personagens, quase todos esvaziados da força trágica que o enredo do filme exige: Gekko está envelhecido e agora ganha dinheiro com o livro em que reúne as lições de moral de sua experiência criminosa (pelo menos até que surja a sua 2a chance); sua filha, que o renega como pai e como personalidade pública, é apenas uma webmaster também sujeita aos atrativos do sucesso empresarial; seu futuro genro é um corretor desprovido da ganância criminosa do Charlie Sheen do 1o filme e passa o tempo todo mais parecido com um boy de algum grande escritório. Parece que falta a todos a envergadura amoral dos gestores do sistema financeiro, elemento que me parece fundamental para oferecer ao filme de Stone.

* Leia aqui a crítica de Marcelo Forlani sobre o filme (2010)
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