quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Avaliação do ensino superior. Quem é que decifra isso?

O Sr. Garcia pode espernear contra o que considera uma injustiça do MEC, mas não há como deixar de reconhecer que a maioria das escolas privadas do ensino superior substituiu a cultura do ensino pela cultura empresarial (ou do mercado), fato que subverte a natureza daquilo que fazem. Proclamam seu compromisso com a Educação, mas isso não é verdade. Seu compromisso é com o caixa e isso transparece nas práticas adotadas em relação aos professores, aos alunos, aos laboratórios etc., práticas marcadas pela precariedade de sua concepção educacional, ainda que sejam práticas virtuosas do ponto de vista mercadológico. Não acho que o MEC, que é um órgão do Estado e, portanto, comprometido com o interesse público, pode ser conivente com isso, nem acredito que os péssimos resultados obtidos pelas universidades particulares possam ser relativizados - como se o que fazem não diz respeito ao que são. Fazem comércio com o ensino e são empresas que comercializam o ensino; não podem, portanto, apresentar resultados que destoem dessas características. 

O outro argumento usado pelo Sr. Garcia é o da conduta do BNDEs. Se eu entendi direito, o Banco - que é estatal e voltado para o financiamento de projetos de desenvolvimento, uma instituição que pensa nos recursos que disponibiliza em termos estratégicos - deve ser complacente com os maus resultados obtidos pelas escolas particulares e ajudá-las financeiramente (é claro, com juros subsidiados e prazos geracionais), imaginando-se que é disto que essas empresas precisam: injeção de capital. É isso mesmo? 

Semana passada os jornais noticiaram a compra da Uniban pela rede Anhanguera, um negócio de tal vulto financeiro que ofuscou até mesmo a venda do Neymar para o Real Madrid ou para o Barcelona. Ora, um setor que movimenta somas desse porte (algo em torno de 500 milhões de reais), numa operação que  pode até ser vetada pelo CADE, não é exatamente de dinheiro que esse setor precisa. Dirá o Sr. Garcia que a condição específica da rede Anhanguera não pode ser generalizada para o conjunto das empresas de educação, o que deixaria a emenda pior que o soneto: justamente porque abandonaram (ou recusaram) a cultura do ensino referida acima e optaram pela cultura empresarial (ou do mercado) é que essas instituições passaram a travar entre si uma guerra selvagem e predatória que inevitavelmente levaria à concentração de umas poucas em detrimento da maioria. 

É preciso ser muito ingênuo para imaginar que isso não iria acontecer com o ensino superior brasileiro tendo ele passado pelo violento processo de privatização que passou; essa é mesmo uma característica concentracionária do capitalismo e não seria diferente com as universidades particulares. O que não tem sentido é supor que o BNDEs possa corrigir, com o aporte de recursos públicos, o desvio provocado pela irresponsabilidade concorrencial dos empresários, em especial para aquelas empresas que vêm se mostrando menos aptas a sobreviver no meio das regras que sua própria filosofia ditou e dita. A filosofia do capitalismo brasileiro é mesmo original: quando a brincadeira liberal do mercado começa a fazer estragos, chame-se o Estado para socorrer os feridos e até milagrosamente ressuscitar os mortos.

Penso que o enigma da avaliação do ensino superior não é muito complicado. Uma parte significativa desse setor - aquela composta por empresas que não têm qualificação na área do Ensino e da Pesquisa - precisa rever suas estratégias porque elas vão desaparecer mais cedo ou mais tarde já que não consigo imaginar de onde é que viria o socorro para sustentá-las: o tal mercado não as suporta e vai acabar nas mãos de alguns poucos conglomerados; e o Estado amplia gradativamente sua presença entre as universidades. Para aquelas que não conseguem nem definir direito o que são, em nome das quais o Sr. Garcia parece falar, não vejo espaço, exceto se optassem por uma espécie de "terceira via", nem pública nem privada... Mas essa é uma outra história.
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