quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Empresas, empresários...

O problema todo não é a fórmula empresarial que embala a fatia mais lucrativa do sistema (admitir que é lucro o que as empresas buscam no setor faz parte da transparência geral, é bom que se diga); o problema todo são os empresários... Isso pode parecer brincadeira ou um mero jogo de palavras, mas o fato concreto é que nem a mais ortodoxa visão weberiana das camadas que compõem um sistema organizacional ignora a necessidade de uma adequação cultural entre a dinâmica racionalizadora do sistema empresarial e as formulações mentais de seus dirigentes, dos estamentos que o administram e das classes que detém sua propriedade. A análise de Moura Castro deveria descer a esse nível de entendimento para que fosse totalmente pertinente à realidade, porque do contrário cria-se uma outra fantasia – tão perniciosa quanto a primeira: a fantasia que imagina que a escola como empresa, pelo simples fato de que seja essa a fórmula, possui virtudes imanentes à condição da empresa, está condenada ao êxito e ao cumprimento de suas determinações sociais (entendidas essas últimas como condições estruturais que abrigam todo o sistema). Infelizmente, não é assim...

A armação ideológica que se esconde por trás do empresariamento do ensino reproduz, em sentido inverso, a mesma armadilha que resiste a ela, isto é, oculta sob a forma moderna do gerenciamento do setor as práticas modernas da exploração do trabalho e as dissimuladas burlas das expectativas de sua clientela, desautorizando, no entanto, suas reivindicações em nome da eficácia da empresa. No caso dos professores (para ficar no exemplo que me é mais caro) o que antes era abnegação e sacerdócio, agora é desempenho, atingimento de metas, formulação de expectativas em escala, postergação de demandas corporativas e o que mais for possível alegar para que a lucratividade da empresa e sua apropriação privada obedeçam exatamente os mesmos critérios com os quais a velha escola particular trabalhou e se impôs como espaço desinteressado do cultivo do conhecimento. Aí é que está: práticas discursivas diferentes para justicar, em dois momentos distintos, uma mesma prática econômica. 

Vou ficando por aqui com a atenção voltada para a possibilidade de que a escola privada assuma honesta e inteiramente sua condição de “empresa com responsabilidade social”, um conceito que talvez tenha que ser introduzido na argumentação de Moura Castro. Mas não consigo esconder meu ceticismo com isso, em parte pelo perfil predatório do empresariado brasileiro; em parte pelo ethos constitutivo de suas práticas modernas que se espalham como normas de conduta para todo o segmento empresarial (um shopping center que se recusa a fechar suas portas apesar do risco que representa para seus frequentadores diz mais sobre filosofia empresarial brasileira do que todo o arsenal teórico da moderna administração). De qualquer forma, imaginando-se que a racionalidade empresarial possa ser compatível com o compromisso social inerente ao que ela faz ou produz, é possível pensar numa adequação entre os dois polos, fato que fica sempre mais evidente - e necessário - quando o assunto é Educação. Quem sabe assim...
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Um comentário:

José Augusto Reis disse...

Caro amigo,

Concordo com seu ponto de vista sobre a ineficácia do empresariamento do ensino, motivado simplesmente pela comparação ideológica com o sentido de eficácia que pode ser dado ao universo simbólico empresarial. De fato, uma armadilha.

Vale ressaltar o que temos discutido sobre a "Geração Y" e o mercado de trabalho. Jovens cheios de habilidade e sem experiência, em contraposição aos profissionais experientes buscando novas habilidades. Se no mercado esta nova geração sente dificuldades inúmeras em enfrentar desafios, amadurecer profissional e emocionalmente. O que diremos do ponto de vista pedagógico?

Mesmo antes de discordar e não comprar a idéia do empresariamento das instituições de ensino, tendo como justificativa a eficácia. Vejo que esta eficácia, quando olhamos para a geração que hoje está investindo em sua educação, é bastante questionável, mesmo no mercado de trabalho.

Grande abraço,
José Augusto Reis.