quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Por um triz...

Apolo e Dafne, de Bernini (detalhe)
O comentário vem a propósito de uma sensação ruim que me assalta todas as vezes que, por algum motivo, esbarro (ou tropeço) em qualquer culto evangélico, desses que povoam, em quase todos os horários, a programação da Tv e de outras mídias. Atento para o comércio de audiências que se estabeleceu com base na ingenuidade popular, percebo que o despojamento com o qual seus chefes constroem sua pregação - a negação das imagens e a busca desesperada por alguma construção simbólica que lhes amplie a popularidade -, parece se estruturar em torno de algum tipo de embrutecimento - intolerância, fanatismo, irracionalidade e feiúra.

Significa dizer que a negação da arte como instrumento de leitura e de tradução do pensamento - teológico ou não - pode representar uma ruptura com a tradição humanista que o o cristianismo ajudou a construir e a emergência de um conjunto de crenças meramente salvacionistas e messiânicas em torno das quais não é preciso muito mais que sentimentos primordiais e primitivos.

Se isso é verdade, como estou convencido de que seja, a sociedade contemporânea pode estar na fronteira de um novo limite entre uma e outra cultura, dilema que, por um triz, foi superado pela religião como força civilizatória; ao contrário do que ocorre agora com a explosão das seitas evangélicas. A rigor, trata-se de um momento de viragem na história sobre o qual, no entanto, discute-se muito pouco, apesar do arcabouço político e quase para-estatal que vai sendo construído em toda a parte - no Brasil, em especial, com peso decisivo nas decisões de interesse público.

Obs: Outras imagens sobre a história de Apolo e Dafne podem ser encontradas no blog Arqueología en mí jardín.  A referência a esse exemplo justifica-se: é com base na escultura de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) que Kenneth Clark teoriza sobre as características da arte barroca enquanto tradutora da nova sensibilidade surgida com o Renascimento. A íntegra da lenda encontra-se aqui.

Sugestão de leitura:

Os vendilhões dos templos eletrônicos em tempos de espertalhões da fé. Artigo de Luiz Cláudio Cunha (Sul 21).

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