domingo, 17 de junho de 2012

Grécia: Vivemos à luz de uma estrela morta

Diz "o" partido, mas tem havido alternâncias políticas na Grécia, desde a queda da ditadura, em 1974...

Sim, claro, após a queda dos coronéis apareceu a Nova Democracia de Constantin Karamanlis, mas, a partir dos anos 1970, foi realmente o partido chamado socialista de Andreas Papandreu, o Pasok, que governou a Grécia. Esses dois grandes partidos, um de direita e outro de esquerda, funcionaram da mesma maneira; mas temos de reconhecer que o Pasok levou o sistema de clientelismo ao auge. Operou uma verdadeira usurpação dos recursos estatais, incluindo todo o dinheiro que veio da União Europeia. O dinheiro do Estado tornou-se tesouro do partido, que permitiu a criação de muitos postos de trabalho fictícios, por exemplo. E isso persiste e explica em parte porque chegámos à presente catástrofe económica: o sistema está esgotado, porque não há mais recursos, e tão profundamente podre, que estamos num impasse. É tudo isso que me faz dizer que o país já está morto, e que o deve aceitar: deitar tudo fora, para começar do princípio. A isto chama-se consciência histórica. 

Apelar a um profundo salto moral. Mas será isso compreensível num contexto em que as pessoas sofrem cada vez mais, física e mentalmente? Tentar manter um padrão mínimo de vida não vai ter precedência sobre outras considerações?

É verdade que a vida quotidiana na Grécia se tornou quase insuportável. Mas às vezes, eu que vivo nesse quotidiano e sofro como toda a gente, acho que os europeus têm razões para quererem castigar o país. Às vezes penso que não espero que tenham pena de nós, porque, há que dizê-lo, o povo grego também é culpado: viveu na facilidade e numa frivolidade que o levou a aceitar todos os acordos.

Tenho frequentemente a impressão de que uma espécie de vulgaridade, de grosseria, invadiu o meu país. Às vezes, vê-se uma forma de riso, por exemplo, bastante assustadora: um riso que, nas palavras do monge do “Nome da Rosa”, de Umberto Eco, distorce o rosto do homem e o torna feio... Não quero dizer que gostava que as pessoas chorassem, mas este riso denota uma forma de imprevidência insuportável. Então, quando digo a mim mesmo, por vezes, que gostaria que a Europa desse uma sova na Grécia, é porque estamos mesmo a asfixiar. O que se vê de dentro, é realmente um povo que sofre muito, que sofre as consequências da corrupção generalizada, mas que não é apenas vítima: os nossos políticos são feitos à imagem do nosso povo. Esta mentalidade deplorável de que falo pertence a toda a população, e nem é exclusiva da população grega: podemos traçar inúmeros paralelos com a Itália e a Polónia, por exemplo...

Como fazer, então, emergir essa mudança profunda?

Por enquanto, é quase da ordem da utopia. Nas condições em que vivemos, falar de uma nova civilização parece uma espécie de sonho que pertence à arte e não tanto à realidade. É o grande contributo da arte e da literatura: a invenção. Todas as grandes invenções, a começar pela democracia e a tragédia, saíram de uma realidade histórica específica, como muito bem demonstrou Cornelius Castoriadis. É por isso que nos devemos perguntar se a democracia que foi inventada na Antiguidade ainda pode funcionar.

Talvez seja altura de inventar uma nova forma de governação... Penso num poema escrito por Guenter Grass sobre a Grécia – intitulado “A Vergonha da Europa”, foi publicado em 25 de maio pelo escritor alemão no Süddeutsche Zeitung e começa assim: "Afastas-te do país que foi teu berço...". Para mim, é um mau poema – enfim, superficial –, porque, se falamos da Grécia como o "berço" da nossa civilização, é preciso ver que esse berço se tornou sepultura. Mas, por sua vez, o túmulo pode tornar-se berço... A Humanidade, até agora, sempre renovou os seus pontos fortes e modelos de civilização no meio das desgraças e calamidades. Não há nenhuma razão para pensar que não pode continuar assim.





DIMÍTRIS DIMITRIÁDIS


Escritor, criador e tradutor


Nascido em 1944 em Salónica, onde continua a viver, Dimítris Dimitriádis é dramaturgo, ensaísta, poeta e tradutor de muitos autores, como Shakespeare, Tennessee Williams, Samuel Beckett, Jean Genet e Marguerite Duras. É autor de vários romances e de três dezenas de peças, entre as quais Morro como país [1978], traduzida e realizada em muitos países





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