domingo, 16 de setembro de 2012

Centenário fora de hora: eu ainda gosto de McLuhan



Marshall McLuhan
(1911-1980)
Marshall McLuhan situa-se nesse conjunto. Agora mesmo, em 2011, por ocasião do centenário de seu nascimento, não foi pequeno o número de publicações que dedicaram ao pensador canadense reflexões diversas, mas invariavelmente relacionadas com o que se convencionou apontar como seu “profetismo”, isto é, o caráter adiantado e precoce de sua análise sobre o impacto das tecnologias eletrônicas de imagem e som sobre a cultura. Embora seja possível perceber que aquela sua exaltação como figura pública de apelo midiático tenha cedido espaço a uma análise mais detida de seu pensamento, a “unanimidade”, ainda que não seja assombrosa, como diz Luiz Costa Lima (1990: 143), tem sido suficiente para reconhecer nele uma extraordinária sensibilidade que caminhou mais na direção da Antropologia do que em qualquer outro sentido de apelo mais fácil, certamente em consequência do própria frisson que a cultura de massa despertava no final dos anos 60.

Mas parece fora de dúvida: o pensamento de McLuhan permitiu que a televisão fosse vista sob um enquadramento mais amplo e delicado do que aquele que sua aparência e o modismo que despertou facilitavam nos meios jornalísticos e acadêmicos.

O primeiro elemento a ser destacado nesse enquadramento diferenciado é o que diz respeito à mudança de padrões culturais que o surgimento e o desenvolvimento da televisão consagrava. No lugar de um Homem definido em suas práticas cognitivas como preso à linearidade da escrita tipográfica, agora temos um Homem cuja racionalidade está vinculada à circularidade sonora e imagética que tanto o rádio quanto a tv consagravam, com uma evidente hegemonia desta última. A passagem de uma forma de vida para outra, no entanto, não pode ser observada em sua nitidez nem em sua completude, pois trata-se de um período de crise marcado pela transição entre duas eras. No meio dessa crise, a emergência de sistemas de convívio tensionados com os produtos da cultura.

Em Visão, som e fúria, de 1954, McLuhan indaga sobre essa tensão que os novos meios de comunicação tinham nos Estados Unidos. Apesar do forte impacto popular que haviam provocado, nos norte-americanos enfrentavam a resistência que decorria da secularidade da cultura escrita. Diz ele:

Será precisamente devido ao fato de estabelecermos a mais ampla separação entre cultura e os nossos novos meios que nos tornamos incapazes de encarar os novos meios como cultura séria? Será que quatro séculos de cultura de livro nos hipnotizaram numa tal concentração sobre o conteúdo dos livros e dos novos meios que não podemos reconhecer que a própria forma de qualquer tipo de comunicação é tão importante quanto qualquer coisa que ele transmita? (In COSTA LIMA, 1990: 145)

A ideia central dessa observação – que já contém em si os princípios do aforismo que o tornaria conhecido mundialmente, “o meio é a mensagem” – é a de uma percepção mitificada da técnica, como se ela representasse, para McLuhan, uma nova teoria da evolução. Para Wolf, essa nova teologia é uma das chaves para a interpretação do mundo contemporâneo, tanto quanto o pensamento darwinista na biologia ou o marxista na economia (WOLFE, Tom in McLUHAN, Stephanie, 2005: 11) tornaram-se as referências filosóficas fundamentais do século XX. Nesse sentido, observando a técnica como manifestação cultural no terreno da comunicação, o autor canadense enfatiza aquela que seria a pedra de toque da civilização industrial: a emergência de um padrão de comportamento baseado na funcionalidade da informação e dos próprios sentidos.

Com a televisão, no entanto, esse processo ganha uma dimensão ainda mais radical, já que a convergência de possibilidades sensoriais que ela permite leva o homem a “retornar ao seu ‘equilíbrio tribal’, pré-letrado, anterior à imprensa” (WOLFE, Tom, in McLUHAN, Stephanie, 2005: 15), pois não se trata apenas de um meio eletrônico que permite a supremacia de um sentido sobre outro,”mas (...) a da tatilidade e a injunção de fundir-se com o mundo do processo”. Segundo o autor,

A preocupação com a profundidade, interior e exterior, e o anseio por permanência e estabilidade marcam a nova geração televisiva emergente. Enquanto com o cinema o público se tornou a câmara, o olhar insaciável do mundo, com a televisão o espectador é a tela[3]. (...) Com a televisão deparamos com um mundo introvertido cujo objetivo é ser com ela, disposto a um compromisso total em profundidade que é também consciência e articulação. Pois a obsessão com o processo estende-se também ao processo de fazer e conhecer (McLUHAN, 2005[a]: 52).

McLuhan recorre a uma variedade bastante extensa de analogias e metáforas para reiterar esse caráter quase hiperbólico que dá ao seu entusiasmo com a simbiose que a chegada da tv provocava com o espectador. O mais frequente é o uso das referências às rupturas que as narrativas da cultura alfabética provocaram não apenas no texto verbal; também nas variadas formas de expressão estética e conceitual, como a arquitetura, a escultura, a pintura. Há, portanto, uma crise de representação semiótica e simbólica que a chegada da televisão vem agravar, um mundo diferenciado, integrado pela cibernética e pela eletrônica, gradativamente mais distante da mecânica e que cria suas próprias representações:

Ao passarmos da era da mecânica para a era eletrônica, passamos do mundo da roda para o mundo do circuito. E onde a roda era um meio ambiente fragmentador, o circuito é um processo ambiental de integração (McLUHAN, 2005[b]: 78).

        É possível, portanto, interpretar uma das transformações culturais mais importantes de todas quantas são apontadas pelo autor: a circularidade sonora e visual da televisão está na direção contrária à da linearidade dos meios impressos – o livro, o jornal. E só não é a mesma no rádio e no cinema porque nenhum dos dois concretiza o dinamismo da tv (o primeiro, carece do ambiente visual; o segundo, da instantaneidade e simultaneidade com os fatos). Na conferência que proferiu em Nova York, em maio de 1966, intitulada “O meio é a mensagem”, McLuhan aponta essa distinção quando se refere ao “princípio organizador do jornal”. Ele diz: “não há ligação alguma entre as matérias a não ser a data. E se retirarmos a data de qualquer jornal, teremos um primoroso poema surrealista”, para acrescentar: “a data apresenta um pretexto plausível de racionalidade, significado e conexão que na verdade não está relacionado com o jornal” (McLUHAN, 2005[c]: 119/120).

            A associação entre esse princípio de natureza editorial que diz respeito ao próprio suporte no qual a informação está escrita (ou as agendas pessoais não teriam qualquer sentido mesmo quando eletrônicas porque nesse caso seu dinamismo está submetido ao texto linear) e a organização discursiva do veículo é o que a distingue dos recursos eletrônicos, que McLuhan se encarrega de indentificar na cópia xerográfica:

O xerox é a aplicação do circuito elétrico a um mundo que antes tinha sido meramente mecânico e fragmentado (...), permite que o leitor se torne editor, e esse é um aspecto importante do sistema de circuitos elétricos. Com a imprensa, o público tornou-se alheado, observador, mas não envolvido. Com o circuito elétrico, o leitor, o público, torna-se envolvido e entra no processo editorial (McLUHAN, 2005[c]: 121).

Ora, se é verdade que o circuito elétrico aproxima a comunicação de um  processo a-temporal e a-crônico, ainda que emancipe o público e o libere da servidão racionalista da escrita, não é menos verdade que o custo desse dinamismo, que tem a semelhança do impressionismo da pós-modernidade, é o empobrecimento da capacidade de associação dos fatos, tal como a informação clássica exigia. O lamento de Reston, citado no início deste artigo, dá bem a medida do que ocorre – “ela [a televisão] simplifica e reduz ideias grandes e complexas, grandes fatias de tempo”.  Mas ela não o faz como resultado de uma operação deliberada senão como consequência dessa sua outra natureza epistêmica que Marshall McLuhan apontou rapidamente numa entrevista de 1976. “À velocidade da luz, disse ele, não existe sequência: tudo acontece no mesmo instante”[4]. O fragmento, portanto, é o fato inteiro espacial e temporalmente dotado de sua própria complexidade.

Essa análise talvez ainda não tenha sido totalmente absorvida pelos estudos sobre a televisão, o que revela não tanto o sentido precursor da obra de McLuhan em relação a questões postas muitos anos antes de que a eletrônica e as telecomunicações provocassem a explosão do espaço virtual de circulação de mensagens tal como observamos hoje, mas o estranhamento cultural que a tv provoca e a dificuldade em observá-la a partir do prisma de suas características e não a partir de sua comparabilidade com outros suportes (THOMPSON, 1998). Nesse sentido, a televisão continua criando ao redor de si uma série de mecanismos que se desdobram da sua agilidade, incorporando-os, elemento que se comprova com a sequência elevada dos índices de sua expansão em variados formatos do mercado e de estruturas organizacionais que ela vai adquirindo na razão direta de sua expansão, submetendo à sua lógica a lógica de outras formas de comunicação e outros suporte midiáticos.

Uma visão do universo de referências decorrentes do surgimento e do desenvolvimento da televisão que nos parece superficial é aquela que enfatiza sua centralidade nos processos comunicacionais, como fonte e como núcleo gerador de percepções da realidade, posição que eventualmente a ênfase de McLuhan nos processos eletrônicos pode reforçar. A rigor, no entanto, parece-nos justamente o contrário: a tv contribuiu para a descentralidade do sujeito-emissor e do sujeito-receptor no universo da circulação das informações, trincando de forma irreversível a hierarquia do meio sobre a dispersão da audiência, ainda que a aparência do fenômeno possa nos mostrar traiçoeiramente o oposto. Não é por outro motivo que ela apresenta uma extraordinária capacidade de adaptabilidade ao impacto recente da internet e da aceleração que a rede provocou em tudo quanto ela reúne no seu espaço virtual: as mais recentes notícias sobre o desenvolvimento da malha de conectividade e de interatividade voltam a colocar essa tela que queremos ser no centro de todo o processo.

Portanto, a afirmação de Briggs e Burke segundo a qual nas suas obras seminais – Galáxia de Gutenberg, de 1962; e Understanding Media, de 1964 – McLuhan apontou justamente essa centralidade da tv, que por suas características específicas se sobrepõe ao público, essa afirmação contém um viés analítico que obscurece o seu entendimento (BRIGGS & BURKE, 2004: 23), problema que se repete em muitos dos ensaios sobre o professor canadense. Se é possível perceber uma razoável pertinência nos estudos sobre os efeitos que a televisão teve na cultura contemporânea, ela talvez esteja na compreensão dessa “rebeldia” do objeto – frente aos paradigmas funcionais e tradicionais com que o próprio campo da Comunicação é visto.

Conclusões

Um ano antes de morrer, em 1979, McLuhan falou sobre “O homem e a mídia” na palestra que fez em Toronto. Com o universo dos meios eletrônicos em plena expansão, o professor canadense havia se transformado em uma das principais referências intelectuais sobre o assunto, embora não conseguisse escapar das críticas daqueles que o consideravam um instrumento ideológico do capitalismo, tal foi o sentido mítico e messiânico que ele supostamente atribuiu à tecnologia. Era o preço que pagava por ter feito uma leitura que escapou aos tradicionais postulados da sociologia dos anos 60.

O elemento principal dessa leitura residia na ideia de que “ele considerava os artefatos humanos, das ferramentas primitivas à mídia eletrônica, incluindo os computadores, como extensões do corpo humano e do sistema nervoso humano”, embora advertisse “que não estamos equipados para enfrentar as (...) consequências destrutivas disso”. Para isso, dizia, era preciso entender o que ele chamava de “as leis da mídia”, um conjunto de percepções “sobre o funcionamento e as consequências dos artefatos humanos sobre o homem e a sociedade” (McLUHAN, 2005[d]: 329).

Esse talvez seja o elemento que nos impede de ver McLuhan como um profeta desaparelhado para entender a necessidade de emancipação social e política do Homem sob o domínio da técnica. Na verdade, parece-nos que o que ele buscava era antes uma resposta para a pergunta que acabou se transformando no núcleo do questionamento pós-moderno: “vimo-nos privados daquilo que éramos [mas] já não sabemos quem somos” (McLUHAN, 2005[d]: 332). Como resgatar essa utopia perdida com o pensamento clássico e letrado? Tudo indica que para McLuhan a saída era a compreensão realista e racional do papel da tecnologia na sociedade contemporânea, em especial aquele ocupado pela televisão, um outro mundo que amplificasse, através dessa mesma compreensão, o poder de resgatar o significado, apesar dos riscos da “repetição instantânea” e da fragmentação do tempo a que aludiu o personagem citado no início deste texto.

De fato, observando em perspectiva as três décadas que se seguiram à morte de McLuhan não é difícil perceber o acerto de suas observações, em especial sobre a circularidade com a qual a informação foi disseminada no cotiano da existência social; como a experiência cognitiva foi redefinida com o abandono – ou o declínio – das formas clássicas de aquisição do conhecimento. Esse avanço impetuoso da técnica – que tem na tv, como dissemos e entendemos, seu principal representante, mais ainda que o microcomputador – adquiriu um feitio eminentemente regulador, tal como conceitua Boaventura de Sousa Santos (SOUSA SANTOS, 1999). Simultaneamente, no entanto, tem sido a sua própria expansão que oferece os recursos da interatividade e da mobilidade dispersa, em múltiplas possibilidades virtuais, que contrapõe a emancipação da construção de significados ao que a simplificação vê como regulação.

Parece-nos que reside justamente aí, na visão dialética presente entre esses dois polos tensionados pela tecnologia, a principal contribuição de McLuhan para o entendimento do papel da televisão na cultura contemporânea.

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[3] Essa analogia feita por McLuhan (público é igual à tela, referindo-se à televisão) é explicada por ele na comparação que faz entre a tv e o cinema na conferência de 1966 intitulada O meio é a mensagem (ver a referência adiante, no texto): “O mundo do cinema não requer nenhuma participação. É um mundo de fantasia, altamente visual, com o público sentado bem longe do espetáculo. Mas a televisão não é assim. A televisão é um meio de comunicação que envolve profundamente o público como ambiente, o público como ponto de fuga, o público como tela”. A referência do autor é feita a propósito da indignação de espectadores quando descobriram que programas de perguntas e respostas eram manipulados à sua revelia...

[4] Entrevista dada por McLuhan ao programa Tomorrow Show, da NBC, em 1976 (referida em McLuhan por McLuhan, 2005)

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRIGGS, Asa & BURKE, Peter (2002). Uma história social da mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004
COSTA LIMA, Luiz (1990). Teoria da Cultura de Massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
McLUHAN, Stephanie e STAINES, David (2005). McLuhan por McLuhan. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
McLUHAN, Marshall (2005[a]). A tecnologia, os meios de comunicação e a cultura. In McLUHAN, Stephanie. Op. Cit.
__________ (2005[b]. Cibernética e cultura humana. In McLUHAN, Stephanie. Op. Cit.
__________ (2005[c]. O meio é a mensagem. In McLUHAN, Stephanie. Op. Cit.
__________ (2005[d]. O homem e os meios de comunicação. In McLUHAN, Stephanie. Op. Cit.
__________ (2006). Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.
SOUSA SANTOS, Boaventura de (1999). Pela mão de alice. São Paulo: Cortez, 1999.
THOMPSON, John B. (1998). Los media y la modernidad. Una teoría de los medios de comunicación. Barcelona: Paídós, 1998.
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