segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Capturar sinergias e recompor colchão de recursos...

Em lugar nenhum do mundo...
(copiado do jornal Valor Econômico, 27/08/12)
É nesse ponto que aparece a história do título da postagem. "Capturar sinergias e recompor  colchão de recursos" é um eufemismo que pode ser traduzido como "cautela e ousadia simultâneas". A primeira, conservadora, fala sobre "parcimônia na estratégia de aquisições". O lucro tem sido tão exorbitante e tão fácil que a obsessão de outros tempos cede lugar à disposição cuidadosa de "botar o pé no freio para manter a rentabilidade", uma lição que o baixo capitalismo aprendeu desde a fábula da Galinha dos Ovos de Ouro. A ousadia, no entanto é política e passa como um trator sobre qualquer consideração que possa questionar uma universidade dessas numa sociedade como a nossa. É aqui que estão situadas duas das marcas mais graves do processo todo:

1. No Brasil, a fonte mais importante na produção de ciência e tecnologia são os institutos de pesquisa e as universidades públicas. É esse fato que nos levou, no último ranqueamento, à 13a. posição internacional no setor, o que representa um momento importante na vida acadêmica brasileira e que foi reconhecido por duas revistas internacionais de referência - a The Economist e a Science (leia aqui matéria sobre o tema publicada no site do SINPRO-SP). Em contraste com esse esforço, no entanto, a participação da universidade privada na produção científica brasileira é praticamente nula, apesar do gigantismo de seus lucros e das perspectivas de crescimento contínuo, como dizem seus próprios gestores.

2. Temos em mãos, portanto, uma instituição parasitária que vive da energia que consegue sugar de uma reserva de mercado que não lhe garante apenas condições de expansão despoliciada, sem exigências muito rigorosas em relação ao cumprimento dos objetivos que dizem respeito à sua natureza; garante também um fluxo contínuo de recursos financeiros públicos através dos mais diversos estratagemas. O mais clamoroso deles é o da isenção fiscal (leia a notícia do DCI sobre o assunto), seguido da anistia à prática das dívidas fiscais (aqui)  e dos créditos subsidiados pelo BNDEs (para que se tenha uma ideia do que isso representa: o valor da anistia concedida à sonegação fiscal praticada pelas universidades privadas corresponde a mais de 50% da dotação orçamentária do MEC para o ensino superior).

"Capturar sinergias e recompor colchão de recursos" deve significar alguma coisa que explique o paradoxo de um país que queima uma riqueza social extraordinária para construir uma sociedade moderna e igualitária, mas que aloja um segmento empresarial que vive às custas do próprio Estado e ignora suas responsabilidades, inclusive com os profissionais que atuam nele. São reflexões feitas a propósito da recente divulgação pelo MEC das regras de avaliação da qualidade do ensino superior (aqui), uma boa oportunidade para resgatar o ensino e a pesquisa que o capital deve ao país.
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