quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As storytellings chegam à produção acadêmica

Em outro momento de intimidade, com o mesmo coelho,
Beatrice Potter pousa sua simpatia pelos indefesos

(via
Retronaut)
Talvez seja esse um dos motivos pelos quais o livro vem sendo tão festejado em alguns círculos, neste caso, o dos que apreciam Nasar, professora da Universidade Columbia e autora de um outro sucesso no campo das letras - Uma mente brilhante - aquele mesmo que virou um belo filme sobre a vida do matemático John Nash. Outra roda que reverencia a autora é a dos jornalistas que trabalham com economia, certamente vários deles com uma dor-de-cotovelo provocada pelo sucesso editorial da obra e pelo deciframento de questões complexas que eles próprios não sabem como interpretar ou não conhecem. O último círculo de admiradores de A imaginação econômica, no entanto, me parece o mais importante: o dos que acreditam que o grande embate e desafio das formulações teóricas e aplicadas da Economia é a ameaça representada pelo retorno de John Maynard Keynes como guru da salvação do capitalismo via regulação do Estado.

Posso estar enganado, mas me parece que este é o objetivo central do trabalho da professora de Columbia: o destronamento de qualquer utopia planificadora da economia de mercado a partir de um ataque sistemático aos seus fundamentos, sejam eles marxistas ou liberal-heterodoxos. Sylvia Nasar estabeleceu para si uma hipótese e é em torno dela que acredita que a economia moderna gira: a razão primordial da geração da riqueza está no convívio social e político com o desequilíbrio que a própria geração da riqueza provoca, e a ameaça que esse processo sofre vem de todos os lados. Nesse sentido, o livro é aquilo que se pode chamar de uma obra-manifesto. Depois da crise de 2008 - que ainda está longe de acabar -, do escandaloso descontrole global do capital financeiro, dos protestos internacionais contras as medidas ortodoxas e monetaristas que procuram preservar os bancos e desconstruir o Estado, o trabalho de Nasar é pura música para um largo segmento de formuladores das políticas econômicas.

O livro é tudo isso, mas é enganoso porque os argumentos da autora seguem a linha da retórica do bom gosto que inspira as storytellings. E o encantamento que o estilo provoca obscurece e desloca a demonstração científica da tese, se é possível imaginar que a hipótese da autora permaneça solta no ar de ponta a ponta do trabalho porque não há - ou há muito pouca - evidência de fatos relacionados com ela. Não é o meu objetivo mapear os momentos da obra em que isso ocorre, me contentando aqui em apontar o vício metodológico que responde por esse desequilíbrio do livro:  a dimensão do despropósito que essa oscilação entre intenção (descanonizar os mitos do pensamento econômico heterodoxo) e gesto (confundir a crítica não com a desconstrução do mito, mas com a sua desqualificação entre o irônico e o debochado). No final das contas, da leitura do livro de Sylvia conclui-se que as doutrinas econômicas são obra de caprichos pessoais e eivadas de uma subjetividade que só encontra respaldo no brilho formal do texto - e na criatividade com que o analista preenche as lacunas que vão surgindo o tempo todo.

Em tempo: Beatrice Potter (que ilustra a postagem), surgida na obra de Nasar como a inspiradora do Estado do Bem-Estar Social britânico, é a patronesse de um projeto que no livro só se explica pela natureza amorosa de sua adesão às ideias de Joseph Chamberlain, o pai daquele que seria o ministro a negociar com Hitler. Essas narrativas...
______________________________

* Leia uma entrevista e dois artigos que foram publicados no Valor Econômico sobre o livro de Sylvia Nasar - A imaginação econômica. Gênios que criaram a economia moderna e mudaram a História: 

☞ Entre a esperança e o espectro da revolução

☞ Uma ideia vencedora, sem vez para os críticos

☞ Como a teoria deixou de ser uma "ciência sombria"
______________________________

Nenhum comentário: