quarta-feira, 10 de abril de 2013

Estadão perde o tom e o rumo...


Estadão: no lugar do jornal, uma
silhueta turva e evelhecida do jornalismo que construiu sua tradição
Em primeiro lugar chama atenção o caráter constrangido e envergonhado com que a informação foi dada: um canto na parte de baixo de uma página par no caderno de Economia, como se a recomendação em torno das mudanças fosse a do tratamento low profile, sem muito oba-oba porque parece que a reforma prenuncia um abalo sério na personalidade do jornal. Perda de substância noticiosa alegadamente produzida em razão de uma nova ótica de funcionalidade dos hábitos do leitor (o que é, por enquanto, uma ficção), ajuntamento de cadernos e pausterização de editorias, reforço da cultura do digital sobre o impresso. Enfim, parece que o veículo acelerou sua disposição em aceitar como inevitável não o deu declínio, mas o seu desaparecimento...

Em segundo lugar, essa história da compatibilidade invertida entre os dois perfis simultâneos com os quais abri o post: credibilidade jornalística e sucesso empresarial. Digo invertida pois no balanço que me serviu de exemplo para os estudantes, a primeira se sobrepõe à segunda - como estratégia; agora, a segunda se sobrepõe à primeira, também como estratégia mas a partir de um outro pressuposto: não há fidelidade a ser consolidada porque o tudo ou nada pela sobrevivência econômica parece ter colocado a coerência editorial - e as virtudes que construíram as marcas do jornal - num distante 2o. lugar. Nessa linha de raciocínio que parece comandar hoje as decisões macro dessas empresas duvido muito que o jornalismo, tal como o conhecemos, sobreviva.

Dia desses li o texto Retomadas, de Perry Anderson, publicado pela editora Record na antologia da New Left Review organizada pelo professor Emir Sader. Anderson faz um balanço da revista e procura explicar aos leitores as complicadas razões de seu sucesso tantas foram as vicissitudes que o pensamento livre enfrentou no pós-guerra. Lá pelas tantas, me parece que a NLR encontrou seu êxito numa fórmula muito parecida com a de outros veículos: "intersecção da inovação estética com a filosofia e a política", "vitalidade" herdeira de seu projeto original, tanto a defesa de princípios "quanto a capacidade destes [periódicos] em decifrar o curso dos acontecimentos no mundo". E mais um pouco: como "a perda de visão editorial decreta a derrota intelectual", é preciso evitá-la a todo custo, porque "jornais políticos não têm escolha a não ser manterem-se honestos consigo mesmos, e precisam almejar estender sua vida concreta para além das condições e da geração das pessoas que os trouxeram à vida".

Pois esses ingredientes de uma publicação séria e comprometida é tudo o que as reformas dos grandes jornais brasileiros não têm. E o exemplo dado agora pelo Estadão parece confirmar a regra, lamentavelmente.

Sobre o mesmo assunto, sugiro a leitura dos textos publicados no Observatório da Imprensa:

Sem tempo para leitura, Sylvia Debossan Moretzsohn
* Cabeças de papel, Luiz Egypto
A montanha pariu o rato, Luciano Martins Costa
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