quinta-feira, 9 de maio de 2013

O melhor capitalismo do mundo...

No caso brasileiro, até os intermediários foram dispensados
Pode-se imaginar que essa lógica das bondades para os investimentos em infraestrutura de transportes, como é o caso da rodovias, tenha uma justificativa bem específica e não chega a ser um certo tipo de construção ideologica e metodológica de política econômica. Tudo indica que é sim. Estamos diante de uma diretriz que abarca todos os setores, mesmo às custas do imposto geracional que isso pode representar a médio prazo. É o meu segundo exemplo.

O portal UOL, no último dia 2 de maio, publicou uma matéria (aqui) que traduz os primeiros resultados da política de desoneração fiscal e trabalhista que teoricamente beneficiria o aumento dos investimentos. Diz o texto que em março deste ano o resultado negativo da Previdência Social dobrou e chegou a R$ 5 bilhões ( sobre o mesmo assunto, leia também o texto Paulo Kliass em Carta Maior). Não é de admirar, portanto, que o governo se veja às voltas com déficits orçamentários crescentes que começam a reduzir  sua capacidade de investimento em projetos sociais ou na melhoria daquelas iniciativas que ganham algum fôlego no legislativo, como é o caso recente da carga que o Palácio do Planalto faz contra a aprovação da desposentação no senado. Ora, mas se o custo da produção se tornou menor em razão da desoneração, não há efeito social positivo decorrente disso?

Não há... mais uma vez o resultado da lógica da privatização da riqueza e da socialização do seu custo  aparece para ilustrar meu 2o. exemplo. O Valor Econômico de 8 de maio trouxe como uma de suas manchetes principais o resultado mais grave da desoneração: os preços dos produtos não estão cedendo ao custo menor da produção, o que parece indicar que, além das dificuldades sazonais e episódicas dos diversos setores, pode estar ocorrendo um aumento das margens de lucros das empresas beneficiadas com as medidas do governo (aqui). Minha impressão é a de que os empresários não estão nem aí para todo o contorcionismo que Dilma vem fazendo (equivocadamente, segundo entendo) para reduzir preços e afastar qualquer tipo de ameaça para a estabilidade da economia. Parece que o que querem é sangrar mais ainda a condição de refém em que o governo atual se transformou na obsessão pela governabilidade a econômica e a política e por uma mal explicada ênfase na competitivade empresarial. Ou alguém imagina que as montadoras não vão querer eternizar a isenção do IPI e conseguir mais recursos do BNDEs para seus projetos de expansão. Aliás, nesse sentido, uma breve recordação: foram as montadoras Ford e GM que, graças à exorbitância de seus lucros no Brasil, conseguiram tirar do buraco suas matrizes nos Estados Unidos. E a Fiat já deixou claro: só implementa seus trilhardário plano de investimentos, se houver subsídios governamentais... (sobre a farra das montadoras, aqui)

O 3o. exemplo decorre dessa minha argumentação anterior. A obsessão pela governabilidade - só pode ser ela - é o que explica essa nomeação vergonhosa do vice-governador Guilherme Afif Domingos para uma tal secretaria da micro e pequena empresa. Do ponto de vista político, Afif nunca foi confiável tal é a fidelidade errática que mantém com os partidos por onde andou saçaricando. Até aí, nada de novo pois que o partido de Kassab compõe a base aliada do governo e o Afif vai lá pra Brasília é pra isso mesmo, às favas sua aliança com o PSDB. O que me chama a atenção é o segmento que ele representa: o maior foco de pressão pelos privilégios do capital e contra os direitos sociais que se aglutinam no segmento do empreendedorismo e das médias, pequenas e micro empresas. É aí que está o núcleo ideológico do Custo Brasil e toda a cadeia de pressões que se desenvolve para que o capitalismo entre nós seja uma atividade econômica e aventureira desprovida de riscos e o trabalho uma atividade produtiva inteiramente sujeita ao sabor da instabilidade de seus ciclos.

Em tempo: vale a pena ler a entrevista que o professor de Sociologia e Política do Insper, Carlos Melo deu ao suplemento Aliás, do Estadão de 12/05/13 (aqui no link do próprio jornal ou aqui em cópia pdf). Para Melo, o jogo de Afif desmoraliza a política e o transforma no exemplo acabado de um presidencialismo de amarração em vias de desaparecimento.

E pra quem não se sente suficientemente convencido sobre a dilapidação dos recursos públicos pelos interesses empresariais, recomendo a leitura de duas matérias da Folha: Pressionado, governo aceita pagar mais por grandes obras e Criado para a Copa, regime se alastra pelo país.
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