segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O homem que fazia chover...

Matt Damon alivia o sofrimento do doente terminal que o Seguro Saúde se recusa a atender: a rotina da selvageria social do capitalismo no mundo todo
Pois vem dessa segunda reflexão que o filme permite a justificativa desta postagem. Se os desmandos do grande capital nos Estados Unidos são acobertados no plano simbólico pela miragem de uma Justiça que restabelece o equilíbrio entre o público e o privado (ali representados pelo interesse social da família vitimada pelo arbítrio da seguradora e pelo interesse da empresa em assegurar seu gigantismo financeiro), no Brasil parece que nem temos esse consolo, se é possível afirmar com segurança que o ideológico compensa os desmandos concretos do capital. 

Exemplos não faltam, mas um fato recente me permite afirmar que, no nosso país, o comprometimento institucional com o regramento jurídico faria Coppola inverter o enredo de seu filme... ou desistir dele. Refiro-me a esse escândalo (que já está escapando das manchetes dos jornais) que envolve o ministro do Supremo Tribunal Federal (a nossa Suprema Corte), José Antonio Dias Toffoli (leia aqui): um episódio que embaralha de tal forma os ingredientes do seu conteúdo que todas as forças sociais envolvidas acabam vítimas de uma armação que não tem fim. Uma húbris de sentido inverso: não se trata mais de um descomedimento virtuoso - como seria o caso da vitória do poder do dinheiro narrada no filme de Coppola - mas de uma desvirtuosidade completa e radical, a ausência de qualquer elemento de dignidade, um default ético e institucional absoluto.

Parece exagero, mas não é. Na imprensa brasileira, até onde sei, só Luiz Gonzaga Beluzzo é que escreve sobre o tema da desarticulação geral que o grande capital provoca na sociedade e no papel regulador do Estado (aqui, naturalmente, compreendido como a estrutura dos três poderes). Depois da leitura de um artigo seu intitulado O capitalismo e seus cartéis publicado no Valor Econômico é possível entender melhor (mas não justificar) a lógica de Toffoli, dos nossos Planos de Saúde, dos nossos Bancos, das nossas universidades privadas etc etc.

Nem sei se Coppola previu que seu filme chegaria a tanto, mas é o que uma distração dessas me permitiu. Certamente muito mais do que o fultebolzinho do São Paulo e o brilho do Corinthians... Foi uma boa troca.
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