segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Livro de Paula Puliti abre a caixa preta do jornalismo econômico

O capitalismo é instável e feito para as empresas; o jornalismo econômico não precisa ir pelo mesmo caminho
Tenho muito interesse pelo assunto, mas não foi só isso o que me fez ler a obra quase de um fôlego só... foi também a narrativa segura e bem conduzida, várias vezes contundente, com que o livro foi escrito; e num estilo que não esconde a competência jornalística com que a autora se saiu na sua experiência profissional e acadêmica. Além disso, destaco também a boa fundamentação conceitual, a metodologia e o pano de fundo de natureza filósófica com que Paula Puliti resolveu expor um tema que certamente trará para si - se é que já não trouxe - alguns muxoxos corporativos - pois o livro se indispõe saudavelmente com pelo menos dois universos bastante agressivos quando são pegos na sua fragilidade.

O primeiro é o universo do setor financeiro. É esse ramo hegemônico do capitalismo neoliberal que mobiliza os dispositivos em que estão instalados os discursos que nos fazem crer que a liquidação de qualquer vestígio do Estado do Bem-Estar Social, paralelamente à maximização dos lucros resultantes da especulação financeira, é o melhor que nos pode acontecer. E é com base nesse pressuposto que se articulam todas as análises e explicações sobre os processos e fatos econômicos. 

O segundo universo - a rigor, o núcleo da tese de Puliti - é o do jornalismo econômico. A autora vê a imprensa (na minha opinião, acertadamente) como talvez o mais importante instrumento dessa ideologia - aqui, transformada em crença neoliberal, compondo com outros aparelhos (inclusive os cursos de economia) um complexo de dominação simbólica sob o qual neste exato momento estamos todos submetidos. 

No entanto, essa lógica de dominação causa estranheza à autora. "O que se questiona é por que a imprensa aceitou de forma tão acrítica um modelo de desenvolvimento erguido sobre as premissas frágeis do crédito farto, dos ganhos fáceis do mercado de capitais e do enxugamento do Estado". A resposta é construída ao longo do trabalho, simultaneamente ao do entendimento desses processos de instrumentalização dos jornalistas como legitimadores do neoliberalismo.

O juro da notícia aparece em momento importante no cenário nacional. Com a proximidade das eleições de 2014, parece não restar muita dúvida de que os vários campos de disputa vão estar distribuídos de forma mais ou menos equilibrada e não vai faltar o coro da argumentação contrária à reeleição de Dilma Roussef articulado na crítica às medidas que o governo federal toma para afastar o país das conseqüências mais graves da crise econômica. Mal-informados ou seduzidos pelo discurso neoliberal, os jornalistas da área econômica podem fazer o oposto do que se espera deles na esfera pública: esclarecer os cidadãos para o aperfeiçoamento democrático.

Mas o momento do aparecimento do livro de Puliti é também importante por um outro aspecto: os cursos de jornalismo atravessam fase delicada de revisão de suas estruturas pedagógicas em razão das novas diretrizes curriculares que acabam de entrar em vigor. Como a própria autora lembra, a escola é um dos dispositivos de construção autoritária do consenso comum sobre o qual a defesa de uma "economia moderna" ganha espaço. Se isso é verdade no terreno dos cursos de Economia, não o é menos nos cursos de Jornalismo onde uma certa propensão obsessiva às regras da grande imprensa predomina na formação dos estudantes. O resultado é o que se vê: um franco desempenho do narrador como sujeito intelectualmente autônomo na contextualização dos fatos e no dominío das fontes.

Lido com atenção por essas duas corporações ou por qualquer uma delas, transformado em roteiro destinado ao esclarecimento do público - objetivo de quem tem a responsabilidade de lidar com temas de alta relevância social, como é o caso da economia -, O juro da notícia terá cumprido seu papel.
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