domingo, 8 de dezembro de 2013

Uma entrevista que vale uma reportagem...

Nélida Piñon: uma entrevista bem conduzida pelo El País mostra a diferença entre um  jornalista que sabe o que quer daquele que não tem muita noção da abrangência de sua pauta
Faz tempo que a crítica cultural anda em crise na imprensa brasileira. Escrevi sobre isso num artigo que foi publicado na revista Fronteiras, da Unisinos, em 2012, e lamento observar que minhas queixas em relação à falta de rumo que caracteriza esse setor da imprensa continuam acentuadas. Os fenômenos da produção estética e conceitual nos diversos campos da cultura prosseguem sendo observados sob uma ótica que revela não apenas o tradicional desprestígio que a editoria dos 2os cadernos vive nos jornais, mas também - eventualmente como causa desse desprestígio - uma ausência de envergadura intelectual que as pautas dessa área exigem. 

Claro, não é possível generalizar... Agora mesmo, numa bela matéria sobre a teleficção brasileira, o Caderno 2 do Estadão (8/12/13) faz um painel sobre demandas culturais dos autores de folhetins, com destaque para Manoel Carlos. A entrevistadora - Cristina Padiglione - conduz a entrevista com pertinência e densidade e extrai de vários contextos um conjunto de elementos que dão ao leitor uma quase plena percepção dos desafios que o gênero enfrenta na tv brasileira. Quem lê a matéria, cresce com ela.

Pois ontem (7 de dezembro), a Ilustrada (da Folha) tentou fazer a mesma coisa com a Literatura. A matéria versava sobre uma tendência que vem sendo observada na produção ficcional brasileira: a auto-referência autoral. É um dado importante porque esse movimento que arremete o "eu" como matéria-prima de romance ou de registros diversos não é apenas um dado que se possa apenas quantificar; é uma variável da contemporaneidade cultural para a qual o crítico (no caso da Ilustrada, a "colunista" Raquel Cozer) deve aventar hipóteses, pesquisar, discutir, elucidar, contextualizar e... dispor ao leitor como o núcleo matricial de sua análise. Não basta o descritivo: quantas obras se encaixam nessa perspectiva, quais os autores, quais as editoras, quais as temáticas auto-referentes etc.  Nesse caso, a matéria inventariante de Cozer ficou muito ruim. São duas páginas (Minha vida dá um livro) de um cansativo e inócuo arrolamento de informações que se dispõem em catálogo e que não trazem aquilo que ao jornalismo é fundamental: esclarecimento.

É o oposto o que acontece com outro painel, basicamente sobre o mesmo tema, publicado na edição brasileira do El País, consubstanciado na entrevista que Nélida Piñon deu à repórter Eva Saiz em Washington. Aqui não se trata da distinção que caracteriza a entrevistada por sua visão abrangente e encorpada sobre o cenário contemporâneo no terreno da política, da cultura, do pensamento, mas da artimanha da entrevistadora em conseguí-lo da entrevistada para traduzir a mesma questão posta na matéria da Ilustrada: afinal, o que é que alimenta o imaginário dos escritores e como isso se insere no terreno da formação de sua existência social. Uma pergunta feita a um escritor e que o leva a esse ponto cobra, não do entrevistado, mas do entrevistador, competência narrativa e intelectual, elementos que faltam no inventário da Folha.

Meus estudos e pesquisas sobre o Jornalismo Cultural, dos quais o artigo que citei no início é um dos resultados, procuram desmentir a ideia de que o gênero está em crise. Bobagem: o que está em crise é o ofício do repórter, a simplificação do conceito que faz de apuração, o reducionismo de seus textos e o despreparo com que se envolve com as pautas... 
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