terça-feira, 6 de maio de 2014

Dimensões do Jornalismo

Continuação da apresentação do livro...

Mas é preciso que essa dilatação de perspectiva multidisciplinar da produção e da análise do Jornalismo não seja nem meramente tangencial nem apenas episódica, já que ela diz respeito à sua disposição de registro sistemático e intermitente do mundo observado a partir da singularidade epistêmica da informação, como apontou Adelmo Genro Filho em O segredo da PirâmideÉ a partir desse contexto que emergem os gêneros narrativos e/ou temáticos em que o Jornalismo se subdivide, espaços de ressignificação do real e de aplicação do terreno conceitual em que eles se distribuem. Esse é o motivo que explica o Jornalismo Cultural como núcleo dos estudos que são objeto dos artigos reproduzidos aqui, talvez a manifestação que mais expressa a complexidade referida acima. De um lado, porque a matéria-prima de suas pautas é não só a informação como mercadoria (embora ela também o seja), mas também o próprio objeto da informação que circula como tal na sociedade de consumo, fato que o aproxima em demasia de uma perspectiva que o coloca na contingência de um gênero prestador de serviços em toda a linha, esvaziado de riqueza analítica voltada para o interesse público, como pretende o pensamento liberal que interpreta dessa forma toda a cobertura noticiosa. 

Certamente, como verificação empírica da “mudança estrutural” a que se referiu Habermas ao apontar o déficit de substância argumentativa e deliberativa da esfera pública, são inúmeros os exemplos da perda de distinção do Jornalismo Cultural em favor de matérias pressionadas pelas assessorias de imprensa ou pelas regras da midiatização mercantil dos eventos artístico-culturais, assim como são também variados, mas recorrentes, os motivos do ceticismo com que os próprios projetos editoriais dos “segundos” cadernos são vistos inclusive por seus próprios protagonistas. Provavelmente, na dependência de estudos que possam ser feitos em torno desse cenário, reside aí o desencanto teórico-metodológico e reducionista com que o gênero é visto, uma espécie de senso comum refinado e sentencioso que acaba por concluir o óbvio: se na contemporaneidade nada escapa à forma essencial da mercadoria midiatizada, por que o jornalismo cultural conseguiria fazê-lo? 

Claro que não consegue, mas a polêmica que cerca o gênero não se esgota nisso. É certo que os casos estudados nos textos desta antologia reafirmam a variedade de condicionamentos que atravessam suas práticas, em especial aqueles que decorrem da própria performatividade do discurso da crítica cultural (o ganho conceitual que emerge nos dois artigos produzidos na parceria com a Profa. Elizabeth Moraes Gonçalves) e os que se desdobram do mercado de bens culturais que se forma ao redor dos veículos que reproduzem informações a respeito deles. 

Todavia, também é certo que se constituiu em torno de alguns desses mesmos veículos um estatuto de reconhecimento e de credibilidade que lhes conferiu historicamente o papel de tribunas de questões estético-expressivas e ético-políticas consubstanciadas na crítica cultural (reforçada pela presença autoral de especialistas – de dentro e de fora do jornalismo) e produzidas em sintonia com demandas oriundas de diversos campos das práticas culturais, processo que permite observar que o gênero escapa dessa determinação mercantil, chegando mesmo a se instituir como espaço de presença pública de intelectuais que o conduzem para fora da racionalidade exclusiva da cultura de massas.

Essa hibridação do Jornalismo Cultural representada pelo sentido pendular com que é percebido pelos profissionais e estudiosos da imprensa é, portanto, o tema em torno do qual se articulam as hipóteses com as quais trabalho praticamente em todos os artigos reproduzidos aqui.

Resta, no entanto, um paradoxo: as relações entre Jornalismo e Cultura e o próprio Jornalismo Cultural são temas debatidos mais fora do que dentro da universidade. A realização de eventos promovidos por publicações da área, seminários organizados por entidades de perfil corporativo ou até mesmo por instituições que sugerem a temática em cursos destinados a profissionais e estudantes se situam em um terreno caracterizado pela troca de experiências práticas, relatos de cases e por certo distanciamento do rigor analítico que o assunto exige – e certamente merece. Na academia, contudo, em especial nos programas de pós-graduação em Comunicação ou em Jornalismo, o volume de pesquisa sobre o assunto é apenas residual – levada em conta a massa crescente de conhecimento produzido sobre a variedade de temas de que os cursos de mestrado e doutorado se ocupam. Particularmente, percebo nesse desequilíbrio uma das causas das dificuldades que o gênero enfrenta no interior dos próprios veículos que trabalham com ele, fato que exigiria, para sua superação, uma aproximação maior entre editores e jornalistas que trabalham com a crítica cultural e os que o estudam sem o peso das contingências do imediatismo com que o Jornalismo em geral é produzido. 

Se esta antologia contribuir de alguma forma para que essa possibilidade se concretize, o empenho em disponibilizá-la para os interessados terá valido a pena.
J. S. Faro
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* Para fazer o download do livro, acesse o texto em pdf liberado pela Editora Buqui (Porto Alegre)
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