terça-feira, 30 de setembro de 2014

A serviço da escola particular

Sob a aparência da diferença, uma mesma natureza
O roteiro que o jornal oferece é perfeito. Além de um mecanismo de busca muito parecido com o que os sites de compra disponibilizam na rede, com filtros refinados de pesquisa (no caso da Educação, nível de ensino, mensalidade e região/bairro, mas nada sobre o corpo docente das escolas, nem sua qualificação nem as condições de trabalho em que atuam, menos ainda sobre a consistência de seus projetos), uma variedade caótica de informações que abrangem "grife", desempenho e nível econômico, uso de tecnologia e uma bobagem dita por uma coordenadora entrevistada na "pesquisa" e que funciona como um mantra para todo o conjunto: "a escola é que deve se adaptar ao aluno e não o contrário". Ainda bem que isso não é verdade - embora o princípio funcione no aprimoramento do marketing das empresas que atuam na área, preocupação que parece orientar a entrevistada.

Não tenho dúvidas sobre o perfil ideológico e anti-jornalístico de uma publicação dessas: ela enaltece a natureza privada da educação como sinônimo de qualidade, mesmo que no Brasil já esteja consolidada a comprovação de que é exatamente o oposto o que acontece - em inúmeras situações no ensino fundamental e médio e na quase totalidade do ensino superior. Ao mesmo tempo, apresenta-se com roupagem de matéria e de pesquisa, o que não é verdade nos dois casos: não há sinal apuração do que o texto nos diz e nem se pode chamar de "pesquisa" o mero levantamento descritivo das categorias fundamentais para que a escolha da clientela possa ser feita. A Folha, com isso, junta-se a outras publicações (Veja, por exemplo) que instituem o complexo discursivo-midiático dos interesses privados no ensino, e os legitima com isso - na minha opinião prestando um desserviço à Educação e à sociedade.
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