terça-feira, 30 de setembro de 2014

Mito e realidade

Agora é esperar que os distraídos, jornalistas inclusive, parem de falar sempre que a desigualdade diminuiu no Brasil
(Clovis Rossi)
A segunda matéria da Folha é na verdade um artigo do Clóvis Rossi. Segundo ele, mas também segundo estudos respeitáveis do Ipea e até mesmo alguns resultados do Pnad, não está havendo diminuição da desigualdade coisa nenhuma. A gente andou falando nisso muito em função da simpatia que os programas sociais dos governos Lula e Dilma despertavam (e ainda despertam), mas todo mundo sempre soube que esses projetos de assistência sequer passavam perto da estrutura defeituosa da distribuição da renda - que nas condições de subalternidade do modelo econômico aos interesses financeiros e empresariais - sempre esteve concentrada na faixa dos 5% da população que abocanham, sozinhos, 40% da renda nacional. Os restantes 95% distribuem entre si os 60% que sobraram. Numa continha ginasiana, de cada 100 reais os 5% ficam, cada um deles, com 20. De outros 100, cada um dos 60% com 1,05.

O artigo de Rossi confirma que nem é preciso ler o calhamaço de Piketty - O capital no século XXI - para concordar com o autor (acesse algumas resenhas sobre a obra): a dinâmica do capitalismo é a reprodução da desigualdade e não o contrário. As pesquisas só não detectaram isso antes, no caso brasileiro, porque não havia mensuração do quanto os mais ricos deixaram de declarar o crescimento de sua riqueza. No final, ainda que tenha aumentado a renda na base, no conjunto ela se concentrou ainda mais. 

O mito aqui é bastante simples: não dá para estabelecer melhor distribuição efetiva da renda - que signifique mudar a estrutura da economia brasileira - e, ao mesmo tempo, estimular uma sociedade de endividados com o crédito e proteger os empresários pelos subsídios estatais. E eu realmente não sei se o que cresce na sociedade brasileira é a renda ou o endividamento (leia aqui), um outro mito que se confunde com a realidade.

Posso estar enganado - e seria bom que estivesse - mas essa discursaria eleitoral, nesse sentido, mais confunde do que esclarece o eleitor. As práticas neoliberais reforçam esse cenário de descontrole do Estado sobre a dinâmica social? As mudanças anunciadas na CLT melhoram as condições de vida e de emprego dos trabalhadores? A autonomia do Banco Central é boa ou ruim para a sociedade? E a desoneração vai continuar escondendo o crescimento exponencial das margens de lucros dos empresários e concentrando mais renda? 
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