domingo, 19 de outubro de 2014

"Tanto faz quem ganhe a eleição". Será?

Nenhum dos dois será o presidente de "todos" os brasileiros, como se costuma dizer, mas isso precisa ficar claro na implementação de seus projetos
Tomo aqui dois exemplos para deixar clara essa análise. O primeiro deles vem através da matéria que o jornal O Globo publicou ontem (18 de outubro): a transferência para a órbita do Estado do custo social representando pela suspensão temporária dos contratos de trabalho, principalmente na indústria automotiva. Até setembro, o custo desse privilégio das empresas - que não demitem, mas também não pagam - ultrapassou a casa dos R$ 46 bilhões - recursos provenientes do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) cujo déficit é coberto pelo Tesouro Nacional, isto é, com recursos de toda a sociedade. Vale a pena ler a análise que o jornal faz do assunto, ele mesmo surpreso com mais essa mamata com que o capital vem sendo brindado no país. 

Nós sabemos as razões disso: diante da possibilidade do aumento do desemprego, o governo (o de Dilma, o de Lula) faz o diabo, inclusive preservando o lucro e a saúde financeira de empresas transnacionais, que todos os anos praticam a orgia das remessas bilionárias para suas matrizes. E eu nem sei se o ex-menino de ouro de Georges Soros - o Armínio Fraga - faria melhor, mas também não sei se estamos diante de uma chantagem que acaba turvando a percepção que a sociedade tem das políticas postas em prática. Por que essa proteção às empresas? 

O segundo exemplo é a reflexão permitida pelo artigo que Ladislau Dowbor publicou no site Outras Palavras. Trata-se de uma análise vigorosa e contundente sobre o "peso morto" que os bancos representam para a economia brasileira, tal é a sangria de recursos financeiros que, via taxas de juros e de lucros, transferem da sociedade para mãos privadas. O ex-menino de ouro de Soros - o Armínio Fraga - já adiantou que vai detonar os juros se estiver no ministério da Fazenda num governo Aécio e justificou sua sanha com o pretexto de controlar a inflação. Mentira. O que ele vai fazer é aprofundar esse processo que está quase consolidado no país, mesmo sem a autonomia do Banco Central (imaginem...), e permitir que os bancos escapem de uma vez por todas do controle social. Mas por que isso aconteceu nos últimos dois governos?

Dá prá entender, claro: qual é o presidente que vai peitar o capital financeiro? Mas justamente porque se acredita que nem Lula nem Dilma têm força para isso é que o Brasil virou um quintal da especulação nacional e internacional. Imagino o efeito dessa malemolência com os interesses privados (nesse e em diversos outros setores sistematicamente protegidos com recursos públicos) sobre a construção da identidade representativa na esfera pública. E o preço não é alto só na hora da eleição; ele é também alto no cotidiano do processo político, no dia-a-dia das interações do poder, haja vista a sistemática conspiração que os empresários movem contra Dilma sabe-se lá desde quando. Ou alguém pensou que aquele relatório do Santander contra a reeleição da presidente foi mesmo um descuido?

Penso que um novo governo de Dilma tem que arquitetar e colocar em prática a ruptura do Estado (e não só do governo) com os interesses empresariais e privados, nacionais e internacionais, em todos os setores das sociedade brasileira: na economia, na saúde, na educação e... na gestão do capital (aqui no sentido que Bourdieu dava ao conceito) de representação que o reformismo e o desenvolvimentismo construíram nos últimos 60 anos... Penso que com isso vai ficar mais fácil entender porque não é verdade a bobagem do senso comum despolitizado, essa platitude boba que só a Moody's compreende na avaliação que faz da nota de crédito do Brasil: "tanto faz quem ganhe a eleição"...

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