sábado, 22 de novembro de 2014

Sem virtude, sem fortuna...

Maquiavel quis dizer que competência, arrojo, ousadia, determinação, vontade e descortínio estratégico são atributos  de quem pretende a hegemonia do processo político. Nossa burguesia industrial não tem nenhuma dessas qualidades o que a torna parasitária e conspiratória, chorona e cansativa...
Vejam aí o que foi esse fórum promovido pelo Estadão nesta semana com o apoio da CNI para discutir as perspectivas da economia brasileira em 2015. Os participantes, quase todos representantes de setores privados, foram unânimes em decretar que o próximo ano já está perdido para a indústria. Como assim "perdido"? Perdido, taxativamente: não tem reforma fiscal, não há acordos comerciais, não há reforma trabalhista, não tem infraestrutura, os salários dos trabalhadores estão muito altos, ninguém resolve a crise internacional... Motivos de sobra para que o mau-humor da nossa burguesia decida desde já o fracasso de 2015.

Posso estar enganado, mas minha impressão é a de que essa toada choraminguenta dos empresários - chiacchierona, como dizem os italianos - soa como dengo para que na transição entre um mandato e outro, Dilma ceda todos os espaços do governo às bandeiras  conservadoras e antissociais que as urnas não aprovaram. É o tal do 3o. turno do qual tanto se falou desde o resultado das eleições. Como atua num ambiente extremamente hostil à unidade de sua base de apoio, a presidente caminha mais e mais para a ortodoxia da política econômica, eventualmente dando passos mais à direita do que o empresariado gostaria (como é o caso da possível  nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura - nome que nem mesmo os dinossauros do agronegócio apoiam por considerá-lo muito "atrasado").

O fórum do Estadão, portanto, deixou claro duas coisas: reiterou, para quem já não sabia, a fragilidade orgânica de um empresariado que não tem projeto e que vive às expensas do Estado no qual busca proteção e recursos. Esse me parece ser um perfil mais genético do que circunstancial pois evidencia um capitalismo raquítico nas mãos de uma burguesia pouco ousada e pouco inventiva. Se depender dela, não é só ano de 2015 que estará comprometido, mas todo o futuro...

Em segundo lugar, há uma questão que transcende essa variável histórica: a disposição de não aceitar a regra do jogo democrático e de tentar, de formas variadas, desarticular o poder do governo em formular seus projetos. O que estamos assistindo nessa trapalhada da indicação do novo ministro da Fazenda dá bem a dimensão do que acontece: uma ação deliberada dos agentes financeiros e industriais para bloquear qualquer alternativa que não seja do agrado do "mercado".  Penso que comete um erro fundamental quem imagina que se trata de um acerto de contas democrático como diz Marco Aurélio Nogueira (em No fio da navalha), para o qual uma postura negociadora e flexível seria a melhor saída. Na minha opinião, estamos diante de uma decomposição política para a qual nem o próprio empresariado tem outra solução que não seja a preservação de seus interesses imediatistas, qualquer que seja o caminho para isso - da conversa fiada a um pacto anti-republicano golpista.

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