domingo, 9 de novembro de 2014

Difícil entender...

Duas semanas de muita reflexão não foram ainda suficientes para entender a guinada geral na direção do pensamento conservador:  nem mesmo um outro resultado nas urnas conseguiria uma proeza dessas (foto Jot Down).
Na verdade, tudo indica que estamos diante de uma articulação discursiva que consolida a ideia de que a eleição de Dilma, ainda que legal, não foi legítima - uma espécie de derrota moral que transfere a iniciativa do jogo político para os que, mesmo perdendo nos votos, legitimaram as bandeiras com as quais fizeram sua campanha. O mantra é este: a sociedade votou de um jeito que - sabe-se lá como - está em contradição com seu "clamor" por mudanças. A impressão geral é a de que Dilma e seu governo absorveram essa história de tal forma que acabam atuando como um pêndulo que joga sua força no terreno da oposição...

Um exemplo: essa declaração de Mantega de que subsídios do BNDEs, seguro-desemprego, assistência médica estão entre os cortes orçamentários para 2015, nem mesmo Aécio e Armínio Fraga teriam apoiado, tal é o seu sentido atrasado e anti-social. O fato mostra a inexistência de estratégias econômicas comprometidas com as promessas eleitorais - exemplo de fragilidade prática, retórica e mesmo ideológica dos vencedores. Meu amigo dos cafés da manhã na esquina sentenciou: "se é para isso, não teria votado em Dilma" 

A artilharia vem de todos os lados e indica que estamos longe do terreno das coincidências. Em apoio às trapalhadas de Mantega, 32 economistas ouvidos pela Agência Estado (!!!) plantam em suas preferências o nome de Nelson Barbosa (ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda e fanático pelas práticas da austeridade fiscal) como futuro ministro, secundado por Henrique Meirelles - príncipe dos banqueiros e do PMDB. Dois dias depois foi a vez do pessoal do PSDB e dos Democratas: ao incorporar as bandeiras da oposição tão logo foi reeleita, Dilma pratica "estelionato eleitoral". Sem falar nessa espécie de Lenildo Tabosa do século XXI, o blogueiro (?) Reinaldo Azevedo em O PT aloprou para valer, mas..., e na própria Veja com seu didatismo "gramsciano" da política brasileira em PT x PT: radicalismo do partido eleva a pressão sobre Dilma.

Essa conjuntura me parece muito delicada pois aponta não só para o isolamento político do governo - que se põe na defensiva em busca de um consenso artificial que o descaracteriza perante a sociedade; aponta também para uma transferência do núcleo do poder da área política para a área econômica despolitizando esta última com graves prejuízos para programas de dimensão social e de apoio aos segmentos de baixa renda. 

Com exceção de um tímido documento para o qual a mídia - como se esperava - não deu a menor atenção e que articula outros economistas em defesa do desenvolvimentismo como filosofia da política econômica (Manifesto dos economistas pelo desenvolvimento e pela inclusão social), não percebo qualquer articulação dos movimentos sociais (inclusive o sindical) na defesa daquilo que deveria ser o "seu" governo. Está difícil entender... o motivo pelo qual o patrimônio político conquistado nas urnas está sendo posto fora em nome de uma governabilidade artificial e transitória com as elites... Acho que é a sociedade brasileira quem vai pagar a conta disso.
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