domingo, 2 de novembro de 2014

O ovo da serpente

"Não vejo por que teria que ir desarmado ao protesto"
Eduardo Bolsonaro, durante manifestação pró-impeachment de Dilma
(leia aqui a matéria do El País)
Mas a "reivindicação" da volta dos militares ao poder é diferente. Trata-se de um movimento sorrateiro, de cunho extra-legal, sustentado por grupos envolvidos com estamentos  armados do país, que querem deflagar uma crise institucional cujo vértice é o colapso do regime democrático. Portanto, nem é legítimo, nem é legal. Apesar disso, ganha espaço midiático, é aproveitado pelos grupos ultra-conservadortes referidos acima e... amplia a simpatia quase catártica de parcelas crescentes da opinião pública. Levados em conta os elementos da crise política que está instalada no pais desde a campanha eleitoral, penso que o caldo é o da cultura que se arregimenta em torno de alguma coisa parecida com "o ovo da serpente".

Vale a pena, nesse sentido, acompanhar a inflamação do discurso do filho de Jair Bolsonaro reproduzida pelo Estadão. Mas vale mais a pena ainda ler o texto que, aparentemente sobre outro assunto, Marcelo Freixo, professor de História e deputado estadual no Rio pelo PSOL, publicou no caderno Aliás de hoje: uma simbiose do paramilitarismo com entonações de apelo político que oculta a ação de quadrilhas que agem fora da lei. Segundo Freixo, esse é o resultado do Estado mínimo que vem sendo construído desde a era FHC e que durante os governos Lula e Dilma continuou se afastando das prioridades sociais. O casulo do fascismo é justamente este: falência dos mecanismos de representação política, ausência de projetos que consigam abrir perspectivas para a variedade de crises que se instalam no país, capitalização populista e autoritária do descontentamento popular. Há uma galeria de estudiosos sobre o caráter explosivo de situações dessa natureza. Bergman parece ter sintetizado isso em seu filme.

Para quem gosta de exemplos sobre a atualidade desse quadro, sugiro o acompanhamento do que está acontecendo no México, um país que abandonou sua soberania em favor de uma economia associada ao livre-comércio com os EUA (Nafta) e ingressou na era das reformas neoliberais semelhantes àquelas preconizadas por Armínio Fraga. Os resultados estão estampados na imprensa internacional: o presidente da República refém dos interesses privados dos empresários, do narcotráfico, dos Estados Unidos; um país desnacionalizado que hoje se assemelha a uma terra de ninguém à espera de um caudilho pós-moderno que acabe de vez com a democracia e emancipação social no país. Sei não... Sem um programa de ação que resgate sua identidade reformista, sua disposição em quebrar as estruturas que asseguram os interesses privados sobre as demandas sociais, temo pela estabilidade do governo Dilma.

Recomendo ainda a leitura: México, atrás do prejuízoMac Margolis (Estadão), A oposição de bengala, Ricardo Melo (Folha), entrevista com Jacques Rancière no Valor Econômico e matéria da Carta Capital sobre a crítica do professor francês às contradições autoritárias do pensamento liberal.
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