quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma coisa de cada vez...

Riqueza simbólica pode alavancar uma reestruturação partidária das tendências de centro-esquerda e fortalecer movimentos de oposição ao esgotamento parlamentar: eis aí um caminho para o Brasil.
Pois bem, a súbita mobilização dos espanhóis foi vista na época com a mesma mistura de entusiasmo e ceticismo com que as manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013 foram recebidas. Entusiasmo porque as massas nas praças públicas recompõem utopias na medida em que jogam com seu formidável peso político na reversão do modelo neoliberal e na hegemonia dos interesses privados - que na Europa e em todo lugar lutam de todo jeito para preservar seus lucros... Ceticismo, ao mesmo tempo, porque o caráter espontâneo das mobilizações - na Espanha e no Brasil - e seu sentido anti-institucional, isto é, uma aversão ao orgânico-partidário-programático, permitia prever sua inconsistência nem bem uma concentração se dispersava. A possibilidade de que os protestos culminassem na escolha de um governo conservador, afinal concretizada com a eleição de Rajoy, confirmou esse receio.

Tenho a impressão que a mesma crítica foi feita no Brasil à característica pulverizada que as manifestações de junho de 2013 tiveram. Não só pulverizada, em alguns casos características nitidamente despolitizadas (e despoetizadas)  e inorgânicas, ainda que elas tenham provocado um justificado interesse acadêmico por sua eclosão e pelas formas pós-modernas de arregimentação que as redes sociais permitiram. A pergunta que ficou de todo esse processo é uma só: qual o avanço registrado no mundo inteiro em decorrência das mobilizações desses últimos anos? 

A resposta não é muito animadora, mas vem da Espanha mais uma vez o indício de que a História é paciente e às vezes recompensa a cautela mais que o afobamento: a constituição do Podemos - o nome dado ao partido que acaba de se constituir como uma espécie de agremiação dos "indignados" que, segundo matéria do Globo, apresenta-se como alternativa política viável em especial para as amplas faixas da opinião pública que veem a necessidade de construir uma via de contestação ao discurso ortodoxo que alia mercado e representação política tradicional. Para a revista Carta Capital, trata-se de conquistar o espaço do discurso antes do espaço formal do poder. Vale a pena, nesse sentido, ler o artigo que Boaventura de Sousa Santos acaba de publicar em Outras Palavras dando conta da abrangência global que o caminho tem, inclusive no Brasil.

Leituras sugeridas: Podemos agita empresários espanhóis (El País) ★ Das revoltas a uma nova política (Tony Negri e Michael Hardt) ★ Alguma coisa está fora da ordem (Ignacio Ramonet) ★ Acordando do sonho (Slavoj Zizek) ★ Análise de Immanuel Wallerstein sobre o movimento internacional de oposição ao capitalismo financeiro ★ No Brasil, a ascensão de uma nova política de massas (Leandro Karnal).
______________________________

Nenhum comentário: