segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Pistorius...

Mephisto, na versão de István Szabó para o cinema (1981):  metáfora genial da obsessão pelo poder, do Estado ao cotidiano. O que foi ficção mitológica e tragédia para Goethe, filosofia para Nietzsche, destruição para Hitler, para Pistorius foi salvo-conduto para colocar-se acima de sua própria e difícil humanidade
Não sei se meus alunos se dão conta da abrangência da hipótese - que trabalha com a possibilidade de que o apogeu da racionalidade do poder é o ponto de sua própria combustão, dialeticamente corrosivo da própria sociedade que o gera, mas estou convencido de que a proposição é perturbadora porque escapa às explicações simplistas que são oferecidas para a ascensão do nazi-fascismo e se espalha em direção a outras formas obsessivas de expressão - às vezes até no aparentemente prosaico território do cotidiano.

Digo isso em razão da resenha que o jornal El País acaba de publicar sobre a biografia de Oscar Pistorius, de John Carlin, intitulada sugestivamente Correndo de costas para a verdadeum registro de vida que nada tem a ver com a ingenuidade de que a história de Pistorius é uma história de superação. Ao contrário: é uma história de arrogância sem limites, sistematicamente construída, que faz o protagonista acreditar-se acima da particularidade de si próprio e da própria vida, um vitorioso doentio, esvaziado de sua humanidade. Vale a pena pensar sobre isso.
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