quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Brasil republicano? Falta muito ainda para isso.

Quantos significados duplos pode ter uma campanha. Eis aí um bom slogan para tirar esse cara do lugar onde chegou: nosso povo merece respeito
Chamou minha atenção a matéria da repórter Luciana Nunes Leal publicada hoje no Estadão sobre a festa litúrgica realizada na Assembleia de Deus de Madureira (RJ) em agradecimento pela eleição do deputado Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados. Não tenho nada contra os evangélicos nem contra qualquer outro grupo religioso ou tendência filosófica e ideológica. Cada um na sua e todo mundo livre. Mas não é disso que se trata, já que essa formidável ascensão dos evangélicos aos espaços do poder executivo é, na prática, uma instrumentalização da crença a serviço de um projeto obscurantista de governo, uma apropriação confessional e privada do Estado laico.

A polêmica pode parecer bizantina e meramente acadêmica, mas não é. Eduardo Cunha - que passa a ser o 2o. nome na linha de sucessão presidencial (logo em seguida ao do vice-presidente Michel Temer) - nem bem foi eleito e já se saiu com a apropriação para si do poder discricionário de decidir se propostas de regulamentação do aborto serão ou não votadas na Câmara. "Na minha gestão, isso não vai a plenário nem que a vaca tussa", disse o deputado parafraseando a promessa traída de Dilma, numa clara demonstração de que ele não tem a menor noção da função pública que passou a ocupar: presidente de um poder que não é dele nem da tal Assembleia de Deus, mas de todo o povo brasileiro. Só por esse desvio, fossem as coisas levadas a sério, e o parlamentar seria cassado por força da violação do decoro e ao respeito às normas éticas de seu cargo

Cunha não está sozinho. Ao lado dele, na cerimônia de Madureira, entre oradores exaltados com a perspectiva de transformar o país num imenso rebanho de ovelhas, estava ninguém menos que Jair Bolsonaro. No cenário tomado por um regojizo espiritual inédito, não escapou nem mesmo a arrogância e o desrespeito cometido contra o deputado Jean Willys, alvo de chacotas e deboche. No meio dessa verdadeira palhaçada política, a repórter aponta para uma outra natureza desse novo poder que se institui: Eduardo Cunha só chegou onde chegou por conta de sua condição de "chantageador geral da República", como é conhecido em vários salões. Sabe-se lá que mistérios essa frase esconde...

Penso que o Brasil é hoje um país fatiado entre empreiteiras grandes, pequenas e médias, bancos e empresários de todos os portes, tecnocratas associados aos interesses privados que esses grupos representam, os grupos de mídia e o estamento político que se profissionalizou a serviço desses nichos todos. Só não é uma República.

Dia desses, depois de tomar conhecimento do estado de falência virtual a que a economia brasileira chegou neste início de 2015 em razão da inoperância e da cobiça da nossa burguesia, pensei uma campanha - Por um Brasil sem empresários! Depois, ao tomar conhecimento dos lucros que os principais bancos tiveram em 2014, uma espoliação da riqueza social de causar inveja ao mundo todo, imaginei uma outra campanha - Por um Brasil sem bancos e sem banqueiros! Gostaria de estar enganado, mas uma lista de campanhas imaginadas com o objetivo de devolver o Brasil à sociedade talvez peça por um país livre daquela turma toda que estava no abençoado fru-fru-fru evangélico descrito no Estadão.

* Leia também O meteoro Eduardo Cunha, por Alberto Dines (El País)
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