sábado, 21 de março de 2015

"Universidades" particulares: êxtase do capital, agonia do ensino e da pesquisa

Algumas fachadas suntuosas das "universidades" particulares ocultam o mundo precário das condições de trabalho dos professores, da qualidade do ensino e da própria existência da pesquisa. Mas é a sociedade brasileira que as carrega nas costas... na simbologia virtuosa que construíram na mídia e na ilusão que alimentam entre os estudantes, suas principais vítimas...
Parte do segmento do "ensino" superior particular é uma caixa preta que, uma vez aberta por uma investigação independente e honesta, vai exalar um escândalo de proporções semelhantes a esse da operação Lava Jato porque operacionaliza suas atividades através da transferência de recursos públicos desonerados para o capital privado nacional e estrangeiro que tem nessa atividade empresarial um filão inesgotável de lucros. 

O Fies é apenas um dos mecanismos (ao lado do Prouni, de isenções fiscais e de créditos subsidiados) que consolidou esse processo:  foi através dele - sem fiscalização alguma - que as empresas de "ensino" captaram dinheiro de bolsas de estudo - algumas contabilizadas de forma fraudulenta nos registros das "escolas", como noticiou a imprensa. Muitas bad apples no cesto das maçãs, como dizem nos EUA .

O resultado: "universidades" mal-intencionadas, sem investimento em professores, equipamentos ou o que quer que seja, sustentadas pelo Estado, numa orgia de imoralidade que  deixa qualquer empreiteira parecer um convento de freiras carmelitas. 

Só para que se tenha uma ideia, desde 2011 o número de contratos do Fies cresceu 374%, mas os valores que o governo paga aos empresários aumentaram 647%. A diferença entre os dois números é o tamanho do superfaturamento das "escolas". Uma farsa com os recursos da sociedade...

Pessoalmente, estou convencido de que a benevolência com que os governos - desde a época de FHC - tratam essa turma, naturalmente sob a pressão dos lobbies que atuam no congresso e na área dos ministérios da Fazenda e da Educação, constitui um crime praticado contra os estudantes e contra a própria sociedade. 

É claro que Dilma não vai comprar mais essa briga, mas talvez tenha chegado o momento (em benefício da credibilidade da presidente) de ampliar em direção às empresas "universitárias" algum rigoroso rigor (alguma coisa pra valer mesmo) normativo que nos protegesse de suas práticas e restituísse ao Estado a soberania que deve ter sobre a Educação e a produção do conhecimento.

Em tempo1: o Estadão de hoje dá a notícia de que o governo pretende criar um grupo de trabalho para estudar critérios transparentes para a concessão das bolsas do Fies. Tenho uma primeira sugestão para que esse grupo leve a coisa a bom termo: manter os empresários do "ensino" afastados disso. 

Em tempo2: O presidente da Laureate, um conglomerado internacional que atua no ramo da mercantilização de diplomas universitários diz que a tentativa do governo evitar a sangria de recursos do Fies é uma "limpeza étnica" porque impede alunos mais pobres de chegar ao cursos superior. Pergunto: o sr. José Roberto Loureiro, depois de uma afirmação grave como essa, vai ficar impune? E a Laureate vai continuar funcionando?

Em tempo3: A facção dos empresários que exploram a mercantilização de diplomas universitários anda dizendo que pretende criar um mecanismo próprio de financiamento que livre as "escolas" do controle do MEC. Todo cuidado é pouco nessa hora: não duvido de que a iniciativa pretenda transformar os estudantes em reféns das bolsas e o governo em fiador dos inadimplentes.

Nenhum comentário: