terça-feira, 10 de março de 2015

Coalizão capital-trabalho: o Brasil no fundo do poço

Nossas práticas conciliatórias alimentam-se da ingenuidade de que as diferenças sociais são abstrações: o resultado é o que vemos: uma sociedade sem projeto e... sem rumo.
Mas do ponto de vista político, a surpresa vem desse Manifesto da Coalização Capital-Trabalho para a Competividade e o Desenvolvimento, uma das maiores armações das elites para deixar intocados todos os privilégios que mantiveram até aqui; e o que é pior: desta vez com a adesão de centrais sindicais. Digo armações com muita convicção: as diversas facções do empresariado estão entre as maiores responsáveis pela crise em que o país se encontra. Foi esse segmento que se aproveitou dos inúmeros incentivos públicos para os investimentos, o aumento da produtividade e a oferta de empregos. Mas foi também esse setor que se manteve parasitário e que maximizou suas margens de lucros ajudado pela prática equivocada do governo de promover a desoneração fiscal.

Não contentes com isso, foram os empresários que detonaram as contas externas brasileiras com o aumento desmedido das suas dívidas externas tal como noticiou a Folha .

Na hora de colocar a casa em ordem, contudo, as elites empresariais querem ficar livres da austeridade como se não tivessem qualquer responsalidade na origem e na continuidade da crise para a qual o governo Dilma - mais uma vez equivocadamente - oferece receitas neoliberais. A armação, dessa forma, é uma construção teórica e política que mistura ingredientes antagônicos mas que, na mídia, acabam ganhando uma coerência infernal: o esforço para sair da crise deve se voltar, mais uma vez, para a garantia de que os interesses privados não serão afetados.

Pois essa é a montagem discursiva clássica na história do Brasil: a conciliação universal e pública em nome da defesa dos interesses particularistas vistos, claro, como se fossem gerais. É uma tradição que herdamos do patronato colonial, da sociedade estamental da I República e da transições democráticas de 1946 e de 1985, momentos de pactos que contornaram a necessidade de mudanças estruturais que só foram ensaiadas entre nós com Vargas e com Goulart, mesmo assim no âmbito do Populismo. 

Na perspectiva dos trabalhadores, portanto, a coalização capital-trabalho revela-se uma farsa cujos resultados, mais uma vez, caem nas suas costas, mas pode se revelar eficiente do ponto de vista da governabilidade (que é um outro nome - ou um eufemismo - para as práticas conciliatórias). Acho que esse manifesto que a imprensa divulgou coloca o Brasil no fundo do poço e consolida um regime de práticas políticas desideologizadas e dessocializadas. Um retrocesso.

* Fico intrigado com essa possível relação disparatada que existe entre o crescimento da intolerância entre nós (da qual o fascismo da universal do "bispo" Macedo é uma - mas não a única - expressão) e a hegemonia conservadora e obscurantista da burguesia brasileira. A esse respeito, sugiro a leitura da entrevista com o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira publicada na Folha: Ricos nutrem ódio ao PT e a Dilma.

* Recomendo também a leitura da entrevista com Eduardo Fagnani publicada no site do IHU: Política econômica ortodoxa e a nova rodada de supressão de direitos. As reflexões de Fagnani dão uma boa medida do verdadeiro sentido, para os empresários, desse pacto feito com as centrais.
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