quarta-feira, 18 de março de 2015

Governabilidade: a matriz da crise

Nada disso valeu então e os desdobramentos do governo Lula nessa linha do tempo que nos traz agora à crise do governo Dilma são os que estamos vendo: os interesses privados formando a plataforma ideológica conservadora que não vê motivos para que não se complete aquele que sempre foi o propósito de banqueiros, latifundiários, empresários de todos os tipos e a tecnocracia ilustrada e consumista que porta um nível de preconceito talvez o mais radical da época contemporânea: extirpar o reformismo social da cena política. A coisa aqui é bem pior que na Venezuela.

Dilma é vítima desse embróglio: perdeu a base que a levou ao poder e à reeleição quando, em nome da governabilidade e da conciliação com os interesses das classes dominantes, abdicou do projeto - ainda que tímido - com o qual fez a campanha eleitoral de 2014. 

Penso que este talvez tenha sido o equívoco fatal que a presidente e toda a sua entourage cometeram: assegurar à sociedade um projeto que parcela significativa da própria sociedade não quer. No final das contas, essa manobra à direita da política de austeridade misturada com desoneração, afago aos bancos e às grandes empreiteiras etc etc... criou para a presidente uma crise de representação que pode muito bem ser resumida naquilo que Laclau chama de significante vazio. Em outras palavras: Dilma não está governando para ninguém e isso a torna vulnerável por todos os lados.

Um quadro de descontrole grave como esse só se supera, penso, com uma nova aliança - que resgate a identidade do governo com suas bases sociais originais de apoio, com a implementação de reformas sociais profundas, com a ampliação da presença do Estado na economia e com o isolamento dos interesses privados. Essa é a governabilidade que Dilma precisa buscar.

Leia também: * Quatro hipóteses sobre um discurso desastroso * A espúria aliança da governabilidade e o fracasso do projeto nacional
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