terça-feira, 10 de março de 2015

HOUSE of CARDS no Brasil: sinais trocados

O apelo populista entre nós se faz com o sinal trocado e transforma o quadro político num arranjo caótico - porque é dirigido às elites empresariais e não à construção do sujeito político popular. É o que o escândalo das empreiteiras comprova.
Pois é justamente pela percepção que tem de sua fraqueza que seu apelo aos desempregados funciona como um pêndulo que o fortalece - como se o programa (da mesma forma que o New Deal, de Roosevelt) se tornasse (e de fato se torna) um trunfo para a sua sustentação.  O populismo foi isso mesmo em todos os os países onde a fraca hegemonia de partidos, de classes ou de programas abriu espaço para o fenômeno de uma liderança bonapartista que se põe acima dos grupos tradicionais.

Penso que essa é a formulação da Ciência Política, entre as inúmeras existentes, que mais nos aproxima da emergência do fenômeno na nossa história e que mais é capaz de explicá-la num quadro comparativo entre as diversas conjunturas em que ele surgiu. Agora mesmo, sob um olhar em perspectiva que visualize o cenário político brasileiro da última década, é possível identificar um vazio de natureza partidária e programática que explica essa situação de dúvidas do presente. Na verdade, alçado à condição de uma organização de forte vinculação simbólica popular, o PT parece ter perdido o fio que lhe deu sustentação - substituindo a defesa das demandas populares que alimentava sua presença na sociedade pela defesa da governabilidade a qualquer custo, mesmo ao custo da sua coerência programática.

Diz Ernesto Laclau* que é inerente ao populismo a indeterminação de suas práticas, mas isso, ao invés de representar fragilidade, "é condição de sua existência". É sobre esse aparente déficit que se dá aquela que é, me parece, uma outra formulação tão importante quanto a primeira na definição do fenômeno: a construção de identidades coletivas articuladas em demandas que superam a crise de hegemonia da qual o populismo emerge. É o que Underwood procura fazer com o seu plano de empregos subsidiados em House of Cards; é o que Roosevelt fez com o New Deal e é o que Getúlio fez com a legislação trabalhista.

Mas estranhamente não é o que Dilma faz, e ela está mais do que necessitada de criar em torno de seu governo alguma argamassa de apoio. Diante desse escândalo de proporções inéditas no país representado pela ação quadrilheira das empreiteiras que estão sendo investigadas pela operação Lava Jato, o governo anuncia pacote de medidas para socorrer as empresas; silencia diante da chantagem da CNI com o desemprego, caso a desoneração das empresas venha a ser alterada, fatos que comprometem de forma grave a construção da identidade, se é que ela já não foi definitivamente desestruturada nestes 2 primeiros meses de governo.

Ps1: alguma aparência precisa ser mantida. Este post já estava no ar quando li a notícia sobre a iniciativa das próprias empreiteiras em pedir socorro ao BNDES para seu caixa. É tudo o que o governo precisa para fechar o círculo da complacência com a facção desses empresários.

Ps2: vale a pena, no embalo dessa comparação que faço entre House of Cards e a tragédia política brasileira, entender um pouco as mudanças que as séries estão provocando no imaginário dos telespectadores (A política ganha força nas séries de Tv, El País).

* Ernesto Laclau. A razão populista. São Paulo: Três estrelas, 2013
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