quarta-feira, 25 de março de 2015

Redes sociais: presente e perspectivas

Beth Lorenzotti:
redes sociais enfrentam
processo de inserção nos
movimentos da sociedade civil
Segundo a revista Carta Capital em 25 de julho de 2013, ao menos 23 cidades tiveram suas Câmaras Municipais ocupadas, por diversos motivos. “Algumas cidades chegaram a ter mais de uma ocupação. Em Dourados, por exemplo, estudantes de universidades públicas tomaram o prédio pedindo a redução da tarifa de ônibus. Posteriormente, índios ocuparam o mesmo local pedindo auxílio à reserva do município”.

“Muitos dos motivos remetiam às reivindicações locais. Em Santa Maria, manifestantes permaneceram quase uma semana pedindo após a divulgação de uma gravação com conversas entre vereadores, pedindo para que a CPI instalada sobre o incêndio na Boate Kiss não “dar em nada”.


(...) “Outras cidades, como Ilhéus, tiveram a prefeitura ocupada. Já em Vitória, a Assembleia Legislativa foi tomada em protestos”.  A revista listou as cidades que tinham, na época, ou tiveram, a sede do Legislativo municipal tomada desde o mês de junho:
Aracruz (ES); Belém (PA): Belo Horizonte (MG): Divinópolis (MG); Dourados (MS); Governador Valadares (MG); Indaiatuba (SP); tapetininga (SP); Juiz de Fora (MG) 
Montes Claros (MG); Natal (RN); Ouro Preto (MG); Passo Fundo (RS); Porto Alegre (RS); Pouso Alegre (MG); Ribeirão Preto (SP); Rio Preto (SP); Salvador (BA); Santa Maria (RS) 
São Leopoldo (RS); São Luís (MA); Teófilo Otoni (MG) Uberlândia  (MG).

Somente estes episódios configuram um cenário absolutamente diverso do ocorrido recentemente: ocupar o legislativo para cobrar, exigir direitos de uma forma que jamais havia ocorrido neste país e refletiu as ocupações que se deram pelo mundo, igualmente convocadas pela internet, igualmente sem bandeiras partidárias, igualmente horizontais.
Segundo o perfil traçado pelo Datafolha, a idade média dos manifestantes era de 25 anos, diploma de nível superior, antipartidos políticos (84%), e suas bandeiras contemplavam desde a questão do transporte publico até os gastos com a Copa, por saúde e educação de qualidade, entre muitas outras. Houve forte repressão policial em todos os Estados onde se registraram as jornadas.

O perfil do 15 de março era homem, 40 anos, curso superior, assalariado com carteira assinada ou empresário, centro-direita, mais simpático ao PSDB, branco, renda superior a dez salários mínimos, estreante em manifestação de rua.

A manifestação de 13 de março, convocada pela Central Única de Trabalhadores e por movimentos sociais em defesa da Petrobras e do governo federal não pode ser comparada às jornadas de junho, que não tinham lideranças. Assim como a de 15 de março, contra o governo, contra a corrupção, pelo impeachment, com grupos pedindo intervenção militar.

Diz Bruno Torturra: “Não adianta comparar, pois a origem do movimento atual é oposta à de junho de 2013, que teve como gatilho uma demanda não só histórica, mas de cunho de esquerda e popular: pelo transporte grátis. Era uma pauta específica e histórica, catapultada, depois, pela violência policial empregada nos primeiros protestos. Na verdade, é um movimento antítese ao de junho.”

Sim, não há como comparar. Além do protagonismo do  Movimento Passe Livre (MPL)  de São Paulo, com a luta pelo barateamento das tarifas de transportes púbicos tendo como horizonte a tarifa zero- as razões do movimento eram subjetivas, derivadas de uma percepção negativa, generalizada, do campo político em geral.

Em 2013, todos – governo federal, estaduais e municipais, partidos políticos, direta e esquerda foram pegos de surpresa. Em comum, como lembra o professor Malini, “a mobilização em rede ativista e a temática do combate à corrupção e reivindicação da reforma política.

Lembra ainda Malini que há uma diferença fundamental: ”As manifestações de março possuem forte atuação dos partidos e de lideranças políticas. A imagem mais representativa disso é o carro de som, o microfone e a pessoa bradando palavras e discursos para a massa”. Isso em ambas as manifestações, de 13 e 15 de março.

Nas Jornadas de Junho, após a surpresa inicial, houve a consequente criminalização dos manifestantes também por uma parte da esquerda- pois suas bandeiras partidárias foram rechaçadas nas manifestações – assim como a imputação de patrocínio da direita.

Mas junho de 2013 fez parte do conjunto de manifestações pelo mundo- Occupy Wall Street, 15M da Espanha, entre tantos outros, convocados pela internet e viralizados. Movimentos sem lideranças, com decisões tomadas em assembleias e comitês. Como acentua o cientista social espanhol Manuel Castells no livro Redes de Indignação e Esperança- Movimentos Sociais na Era da Internet (2013)- sobre os movimentos sociais surgidos no mundo nos últimos três anos:

“Não se trata de falta de líderes, mas de profunda desconfiança da maioria dos participantes em relação à delegação de poder. As redes, tanto na internet quanto no espaço urbano criam companheirismo, o que ajuda a superar o medo e descobrir a esperança”.

No Brasil, outra grande diferença entre 2013 e 2015 foi a cobertura pela mídia. Enquanto em 2013, inicialmente, ela se posicionou contra o MPL, tachando os manifestantes de vândalos: em seguida voltou atrás, pois a violência da PM atingiu até mesmo seus repórteres (vide caso FSP)- para depois insurgir-se novamente (o jornal O Globo chegou a editar uma primeira página “entregando” militantes como criminosos).

Nas manifestações de 13 de março houve controvérsias quanto ao numero de participantes. Já a de 15 de março, ao contrário desta, teve grande divulgação prévia pela mídia, chegando mesmo a constar como destaque de programa em caderno de “divirta-se” da Folha de S. Paulo e em vários programas de TV (inclusive de auditório) e rádio. Também houve controvérsias quanto a números, com a PM estimando 1 milhão de pessoas e a Folha 210 mil.

A novidade de 2013, uma irrupção das redes nas ruas manifestando uma indignação represada- embora ninguém seja inocente ao não creditar infiltrações - foi o inicio de qual fim não se sabe.

Apenas sabe-se que a internet pode servir a chamamentos diversos, não apenas ao novo, não apenas àqueles que, em todo o mundo, através dos movimentos sociais em rede, propõem uma nova utopia, aquela da autonomia do sujeito em relação às instituições sociais. Também pode convocar e levar às ruas de um país como o Brasil, 2 milhões e 200 mil pessoas, “sem quebrar uma vitrine”, como acentuou em entrevista no dia 23 de março ao Roda Viva o engenheiro Rogerio Chequer, liderança de um dos movimentos, o Vem pra Rua.

De braços abertos

O pessoal do Vem pra Rua usava pulseiras de identificação e camisetas, espelhando assim os camarotes dos shows e dos carnavais, que identificam desta foram os convidados VIPs.
Rogerio Chequer é sócio de uma empresa que ensina executivos a preparar palestras em power-point e diz que o movimento começou em setembro de 2014, inicialmente ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) [3]que prega o impeachment da presidente, o que os teria levado a romper, segundo se entendeu na entrevista.

Ele não compareceu a nenhum ato das Jornadas de Junho de 2013. Tornou-se um ativista social durante as eleições de 2014, marcadas pela polarização entre apoiadores do governo do PT e opositores do PSDB. 

O movimento, segundo ele, tem três pilares: “Exigimos uma separação entre poderes; exigimos liberdade de expressão e não queremos que ocorra a democratização da mídia”.
Chequer diz que o movimento tem 150 lideres espalhados pelo país, mas muitos têm medo de retaliações e daí a sua visibilidade.  Afirma que a hierarquia vai se formar aos poucos, que nunca se reuniram fora da rede e não monitoram os novos movimentos sociais internacionais em rede.

Ao contrário daqueles, o Vem pra Rua prevê, então, uma hierarquia. Entre as características comuns dos movimentos sociais recentes no mundo, Manuel Castells refere-se à horizontalidade das redes (que) favorece a cooperação e a solidariedade, ao mesmo tempo em que reduz a necessidade de liderança formal.”

O Vem pra Rua praticamente se reúne apenas via rede, ao contrário dos movimentos, que realizam assembleias deliberativas que podem durar até dias.

O empresário afirmou que 34% dos presentes da Avenida Paulista ganham de zero a dois salários mínimos, e “a classe média e alta estão de braços abertos para se misturar com pessoas de todo o país”. O VPR vai começar a fazer manifestações mais perto deste segmento, que tem dificuldades de locomoção, informa Chequer.

Para ele, a contraposição de classes surgiu na era Lula, pois antes “não se via isso no Brasil”. Mas ele crê que “não há uma classe mais importante do que outra”.

E na manifestação que estão chamando para 12 de abril, o importante não será o numero de pessoas, mas de cidades. Para esse dia, suas reivindicações serão: redução de ministérios; transparência nos dados dos empréstimos do BNDES; impedimento do ministro Tofoli para julgar o Petrolão, “por ser ligado ao PT”.


[1] As manifestações de 13/15 de março e a artificalização das redes sociais. Entrevista com Fábio Malini

"Estamos deixando de discutir as verdadeiras pautas nesse protesto". Entrevista com Bruno Torturra

[2] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ao-menos-23-cidades-tiveram-camaras-municipais-ocupadas-3078.html

[3] Movimento Brasil Livre
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