domingo, 19 de abril de 2015

Nas redes, são as práticas socioculturais que falam mais alto

Encantamento com a dimensão física das redes confunde quem as estuda
A lembrança do texto de Fábio Fonseca de Castro e das reflexões de Heidegger que ele resgata vêm a propósito de uma matéria publicada no jornal El País segundo a qual a indignação contra a aprovação do PL 4330 que regulamenta a terceirização do trabalho no Brasil dominou as redes sociais num índice que atingiu mais de meio milhão de postagens em 10 dias. Um líder do PSDB - partido que inicialmente posicionou-se favorável ao projeto - adiantou sua percepção sobre o fato: "na guerra da Comunicação, perdemos", disse o deputado Carlos Sampaio. Para o jornal, que dá razão ao parlamentar, 

A grande maioria dos usuários das redes sociais tem se posicionado contra o projeto. Nos últimos dez dias, mais de 98% dos comentários nas redes sociais sobre o assunto eram contrários à medida. Neste período, foram feitas cerca de 524.000 menções contra regulamentação da terceirização de um total de 534.000 sobre o tema, segundo levantamento feito pela A2C, agência digital especializada em monitoramento de mídias. Os principais argumentos apresentados contra o projeto foram que os terceirizados perderão direitos trabalhistas e irão piorar suas condições de trabalho.

Do ponto de vista político, o efeito mais palpável desse cenário desdobra-se em duas direções. A primeira é conjuntural e diz respeito aos deslocamentos discursivos, táticos e estratégicos, que a tendência das redes provocou, já que até mesmo o líder desse movimento conservador que tomou conta da Câmara dos deputados, o "evangélico" Eduardo Cunha, pela primeira vez recuou no "rolo compressor" que é como os jornalistas têm apelidado suas práticas. Na verdade, hoje, o futuro da terceirização é incerto e já não há mais a solidez que os parlamentares que formam o lobby dos empresários demonstraram inicialmente. Em parte, a mudança de atitude se deve ao impacto que as manifestações contrárias ao 4330 provocaram... 

Tags mostram incidência do tema "terceirização"
nas postagens do twitter. O detalhamento revela, segundo
o El País, um clima bastante consistente de oposição ao PL 4330
A segunda direção dos efeitos provocados pelas disposições discursivas anti-tercerização na rede é o que eu me arrisco a chamar de "dilatação da esfera pública". um fenômeno que me parece ir além das simples e oportunistas revisões na postura dos parlamentares. Se é  possível constatar a existência de um "falatório" (no sentido heideggeriano) no "estar aí" do sujeito no mundo codiano, não se pode dizer o mesmo sobre o que chamei acima de "caos cognitivo", isto é, uma perda de significados em razão da profusão das falas - fenômeno consagrado nas redes sociais. Talvez ocorra justamente o oposto: um aguçamento das possibilidades de esclarecimento em razão da primazia que as práticas socioculturais têm sobre a dinâmica das redes.

Penso que essa é uma questão relevante para quem se preocupa com o tema, tanto no âmbito de seus desdobramentos acadêmicos e conceituais quanto na relação que esse processo têm para as análises políticas e para as práticas do jornalismo. Aqui, no entanto, minha preocupação não chega a tanto: o que pretendo é enquadrar a discussão num tom abaixo dessa sonoridade que ela tem, isto é, um debate menos pretensioso mas que pode, eventualmente, abrir caminho para uma compreensão mais precisa da questão.

Recorro incialmente à entrevista que o Professor Fábio Malini, da Federal do Espírito Santo, deu ao site IHU por ocasião das manifestações de rua dos últimos dias 13 e 15 de março, polarizadas em relação ao governo Dilma. Malini, que é autor de um estudo muito interessante sobre o papel mobilizador das redes sociais - A internet e a rua - nas manifestações de junho de 2013, interpreta esse mesmo papel de forma diferente em 2015. Segundo ele, desta feita, ocorreu "uma artificialização da (re)publicação nas redes" que mostra "retratos da despolitização generalizada no Brasil, em que a carga emocional ganha, e muito, das definições bem-delineadas de medidas de ampliação de direitos sociais". E conclui: "os dia 13 e 15 (de março) retratam uma bipolaridade vencida por junho de 2013. Seu fato novo é que, diferente de junho, não há pautas concretas a reivindicar, só há lados a defender".

Interpretação semelhante foi feita por Bruno Torturra, cibertativista do Midia Ninja em 2013. Na sua opinião, a mobilização feita pela redes agora em 2015 perdeu de vista as pautas dos protestos, dominada agora pelo conservadorismo e não mais por demandas de maior envergadura social (leia aqui).

Penso que é preciso matizar, claro, porque a presença das redes nos movimentos sociais é errática e não se pode afirmar que há um padrão sobre a incidência dos significados que elas (as redes) têm e produzem. Entre 2013 e 2015, muita água rolou na vida brasileira e isso certamente interfere nos sujeitos políticos. Em especial, o confuso cenário eleitoral, a polarização da campanha e a descaracterização do governo Dilma, são elementos que potencializaram as manifestações - mas em nenhum caso me parece ter ocorrido uma dinâmica que tenha sido consequência apenas de lados a defender (Malini) ou de dispersão de "pautas" (Torturra). Acreditar nisso significa admitir que as redes existem numa esfera autônoma de virtualidade e digitalidade sob uma fria racionalidade instrumental que desarma a percepção ideológica que a existência cotidiana permite. Particularmente, discordo dessa análise.

Mais que isso, no entanto, quero enfatizar a prevalência do sociocultural sobre o comunicacional. Recorro à análise feita por Adalberto Cardoso em seu livro A construção da sociedade do trabalho no Brasil(*): "a desigualdade social, em suas múltiplas dimensão, é uma das condições estruturantes da sociabilidade brasileira, talvez a mais importante delas". Para o autor, a distinção que o abismo social confere ao país, perpassa todas as práticas, inclusive as do cotidiano, de maneira que nem mesmo "o padrão de incorporação dos trabalhadores na ordem capitalista", retira de sua centralidade a premência de institutos que preservem o desequilíbrio social (as manifestações do dia 15) ou ponham fim a ele (as manifestações do dia 13 e a generalizada oposição ao 4330).

Minha impressão é a de que as redes gravitam em torno das práticas que dizem respeito a essa régua, mais do que à sua eficácia virtual.

* Rio, FGV/Faperj, 2010 (463 pgs)
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