sábado, 6 de junho de 2015

As "igrejas" evangélicas e a exaltação do preconceito e da intolerância: Deus nos livre disso

Jesus não foi à Marcha para Jesus
Juan Arias, El País
Fogueira com produtos de O Boticário na manifestação do dia 4 de junho é um prenúncio grave da mensagem obscurantista das igrejas evangélicas: chegará o dia dos livros e das pessoas
O pastor Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, anunciou que as imagens da Marcha para Jesus serão levadas a 170 países. Seu desejo é que Brasil não seja visto no exterior, entre outras coisas, como “o país das prostitutas”.

Na verdade, como o Brasil merece ser visto dentro e fora de suas fronteiras é como um país tolerante e moderno sem essas obsessões contra os que praticam diferentes sexualidades, que continuam sendo mortos, ou contra as prostitutas, as quais Jesus amava e defendia contra a hipocrisia dos fariseus, chegando a dizer que Deus as preferia a eles.

Não como um país que ainda pune como crime a liberdade da mulher de decidir sobre o fruto de seu ventre se assim exigir sua consciência.

Nem um país hipócrita sobre o consumo de drogas ou que ainda não foi capaz de legalizar a legitimidade de novas formas de famílias, querendo, como querem fazer algumas lideranças evangélicas, impor a toda a sociedade um só tipo de família tradicional com ações ditatoriais que lembram a trágica e assustadora posição política das chamadas repúblicas islâmicas.

Como oportunamente escreveu neste jornal minha colega Carla Jiménez, o que a democracia brasileira conquistada com tantas lutas e mortes não merece é que “a hipocrisia possa dominar o dia a dia cotidiano do país”.

O Brasil sempre foi visto por nós estrangeiros como um país acolhedor e tolerante em matéria de fé e costumes. Hoje é triste e preocupante que venham justamente dos templos os gritos de guerra contra os diferentes, contradizendo Isaías que profetizava a chegada de um Messias, não discriminador e intolerante, mas que abraçaria todas as raças e povos com suas próprias identidades: “Minha casa será chamada de casa de oração para todos os povos” (Is. 56).

Jesus teria fugido da marcha de quinta que pretendia apresenta-lo e consagrá-lo como “Rei dos Reis”, já que durante sua vida havia feito o mesmo quando a multidão, em busca de milagres, quis fazê-lo rei. O evangelista João conta o ocorrido: “As pessoas, ao verem o milagre feito por Jesus (o da multiplicação dos pães) dizia: 'Esse é o profeta que deve vir ao mundo'. E Jesus, percebendo que queriam levá-lo para consagrá-lo rei, retirou-se sozinho ao monte”.

Jesus nunca buscou o poder. Não o temia, mas também não o amava.

Como em vida, se os evangélicos desejassem coroá-lo novamente como rei dos reis, Jesus somente aceitaria sê-lo daqueles que alguns dos pastores de suas igrejas discriminam e humilham.

Se existe algo que é revelado com clareza pelos textos sagrados é que Jesus não suportava a hipocrisia dos homens da Igreja que se acreditavam na época, como muitos pastores e bispos, donos da verdade e até da vida e dos sentimentos das pessoas.

Em uma Marcha em homenagem a Jesus, melhor do que gritar contra as prostitutas, o aborto e contra a homossexualidade, ele seguramente teria preferido ler nos cartazes e palavras de ordem algumas frases de seu famoso discurso contra a hipocrisia, reunido pelo evangelista Mateus (23, 1 – 39), como essas:

- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus hipócritas que limpais por fora o copo e o prato, mas por dentro estais cheios de ganância e cobiça!”.
- “Ai de vós que por fora pareceis justos diante dos homens, mas por dentro estais cheios de crimes!”.
- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus, que descuidais do mais importante da lei como a justiça e a misericórdia”.

Uma das grandes afirmações de Jesus, na qual se inspiraram todas as igrejas cristãs, era a que dizia: “Quero misericórdia e não sacrifícios”.

Os teólogos da libertação, primeiro condenados pelo Vaticano e em fase de reabilitação pelo papa Francisco, sempre afirmaram que a grande revolução do Crucificado foi ter desviado o eixo da fé dos ritos à defesa da vida e da liberdade, do altar às ruas. E nas ruas, os preferidos daquele rei sem coroa e sem casa sempre foram os que ainda hoje continuam sendo os excluídos da sociedade.

Onde deveria estar Jesus na quinta-feira durante a marcha que quis colocá-lo de novo a coroa do rei dos bem-pensantes, os puros e os satisfeitos?

______________________________

Nenhum comentário: