sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Em defesa da democracia

Apesar dos erros - que continuam sendo cometidos - Dilma representa muita coisa para a sociedade brasileira.  Por isso, defender seu mandato é impedir que o Estado seja tomado de assalto pelos interesses privados do grande capital e pelos saudosistas da ditadura.
Engrossa o isolamento do pessoal que quer derrubar Dilma, o indiciamento de Eduardo Cunha pelo PGR. A peça que o acusa de ter recebido dinheiro da Assembleia de Deus em defesa de interesses privados comprova o que muita gente suspeita em silêncio: o duto conspirador formado pelo Partido Evangélico, Malafaia e Macedo à frente. Com a denúncia, Eduardo Cunha frustrou em definitivo a possibilidade de se tornar um polo político alternativo e deixou claro seu caráter de garoto de recados do capital e do obscurantismo. A acusação de Janot faz mudar a linha de suposições na qual o vejismo aposta - a de que o ponto final da Lava Jato seria a prisão de Lula. Essa hipótese, tanto quanto o impeachment, ficou bem distante. O resultado é a oxigenação de Dilma .

Esses fatos, que debilitam ainda mais a fraca mobilização demonstrada no último domingo pelos que querem a saída de Dilma, estão dispostos em sentido contrário ao de uma ainda incipiente retomada da defesa do mandato da presidente. Ontem (20/08), em São Paulo, foi expressiva a participação em passeatas organizadas por entidades de defesa dos direitos sociais, com uma mais nítida composição popular que pode resgatar a base de apoio de Dilma. Satisfação com o programa de governo de Dilma não existe - e os próprios manifestantes deixaram isso claro com a frase emblemática que reflete essa contradição: ruim com Dilma, pior sem ela. Mas é sintomático que esse enunciado produz sentidos mais amplos, inclusive entre aqueles que veem com apreensão o caos político que o afastamento da presidente provocaria. Tinha muita gente na Avenida Paulista contra Dilma, mas nem todos estão tranquilos com o dia seguinte ao de sua eventual saída do Planalto...

Minha opinião é a de que a sobrevivência do governo está muito relacionada com o distanciamento que a presidente conseguir manter dos interesses que apostam na sua fragilidade de sustentação para impor reformas neoliberais que acabem de vez com os direitos dos trabalhadores e assegurem a rentabilidade extorsiva do capital, como parece ser a alma da "proposta de pacto" que Renan sugeriu a Dilma. Além disso, a política econômica continua no desvario da austeridade fiscal que precariza os setores sociais, embora atenda às chantagens do setor automotivo, mostrando toda a fragilidade que essa área econômica tem no país, já que só sobrevive com ajuda oficial e com a precarização de seus trabalhadores.

Chico de Oliveira, um dos mais respeitados intelectuais do país e crítico feroz dos desvios neoliberais dos governos do PT desde a eleição de Lula, definiu como "chata" e pouco entusiasmante a democracia brasileira. Não é tanto pela falta de rigor metodológico e conceitual que sua afirmação não leva a lugar nenhum; é mais pela perda de referência política que isso pode provocar na esfera pública - que é, ao final das contas, o espaço onde - chata ou não - ela precisa ser defendida. Nos últimos dias isso ficou um pouco mais fácil.
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