domingo, 9 de agosto de 2015

Tempos extraordinários

No seu tempo de ministro, Delfim Netto foi blindado pelos militares e não enfrentou panelaço algum quando promoveu a maior concentração da renda já vivida pelo país. Agora, faz o figurino da crítica cínica e vem a público com um truísmo de péssimo gosto e de doer nos ouvidos: "é preciso devolver à sociedade a perspectiva de crescimento da economia". Que bobagem...  (leia aqui a entrevista do ex-czar da economia na triste época da ditadura). 

O maior exemplo disso me parece ser a disputa que começa a ser ensaiada pela prefeitura de São Paulo em 2016. O jornal El País traz uma bela matéria sobre o cenário da verdadeira queda de braço que Marta Suplicy, Fernando Haddad e José Luiz Datena prometem na busca pelo voto da periferia. Se acrescentarmos a esses nomes o do deputado Celso Russomanno, parece claro que os fieis da balança (sem qualquer trocadilho com o voto evangélico) vão girar em torno do arrivismo social, desse sentimento de revanche contra a marginalidade e da lixificação das formas de sociabilidade. Posso estar enganado, mas esse é o preço que vamos pagar pelo modelo que escolheu o sujeito consumidor como paradigma do crescimento econômico da era Lula. Todos os candidatos vão ter que amoldar seu discurso a essa realidade ideológica. E o que é pior: à direita.

O outro processo adormecido é o das referências desautorizadas da crítica ao governo Dilma, mas que um segmento da mídia legitima pela identidade que seus representantes guardam com os segmentos conservadores de todos os estratos sociais. Veja-se, por exemplo, o caso de Delfim Netto, ex-ministro de pelo menos dois governos militares, pelo menos uma vez na pasta da Fazenda. Na sua gestão, Delfim gozou da prerrogativa de ser ministro em regime ditatorial - fato que o livrou da crítica pública aos desmandos que cometeu, entre eles a manipulação de índices, o arrocho salarial, o endividamento externo. Em algum momento, a balela daquilo que ficou conhecido como "milagre brasileiro" só colou porque o Congresso nem podia respirar tal era o clima criado pelas ameaças (várias vezes concretizado) das cassações de mandatos e suspensão de direitos políticos. 

Pois Delfim Netto, agora, deita falação contra a presidente e sai com essa pérola em entrevista que concedeu ao Estadão: Dilma tem de enfrentar o panelaço que lhe cabe. Qual é exatamente o panelaço que cabe a Dilma Rousseff que não deva ser ouvido também por Delfim, o grande arquiteto da modernização defeituosa do país e da maior concentração da renda da nossa história econômica? Aqui a crítica envereda pela ironia filosófica de mau gosto e oportunista do ex-ministro e põe em cena o simulacro da autoridade que pensa que pode dizer o que bem entende - infelizmente, festejada até mesmo por veículos da mídia social-democrata.

Tempos extraordinários esses...
______________________________

Nenhum comentário: