quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Como é que se explica isso?

Do mesmo Magritte, A sala de audição
Esse é o resultado - provavelmente, o mais grave - da nossa dualidade contemporânea, ou seja, uma assimetria em que o conservadorismo se recusa a incorporar a modernidade no seu projeto social moderno - repleto de construções sociais "avançadas" - como é o caso da ostentação da racionalidade financeira (bancos) e tecnológicas (mídia, empresas, universidades) - que operam no âmbito de uma resistência radical em estender ao terreno da cultura organizacional o correspondente a esses itens da inovação capitalista: concentração da renda, relações de trabalho atrasadas e com baixo índice de inovação, ensino de baixa qualidade, práticas culturais atravessadas pelas práticas da crendice religiosa.

O caso da ameaça de revogação do Estatuto do Desarmamento é um exemplo singelo que apenas aponta na superfície. Na minha opinião, o episódio recente que mais sintetiza essa dupla dimensão da realidade brasileira foi a crítica que os setores de extrema direita - a tropa de choque do neoconservadorismo - fizeram aos enunciados culturais das questões do Enem, em especial em torno do tema da violência contra a mulher. É preciso um elevado grau de agonia intelectual para se imaginar que um exame com tal nível de logística e operacionalidade moderna possa se eximir de abordar propostas de reflexão em torno de um assunto que guarda uma forte relação com toda a variação da sua sociabilidade (leia o artigo de Christian Dunker, A ideologia vermelha do Enem). É mais ou menos como se os brasileiros fossem obrigados a usar o ábaco para fazer o seu ajuste anual do imposto de renda sob o argumento de que calculadoras eletrônicas são instrumentos do diabo: coisas da mesma idade, do mesmo tempo, mas que não se coadunam no mesmo espaço.

A raivosa senhora que agrediu Eduardo Suplicy na Livraria Cultura (leia a postagem Agonia e êxtase na terra dos coxinhas), sua exasperação irracional e em tudo oposta aos padrões de urbanidade que emanam no ambiente de uma livraria cosmopolita, é, sob qualquer circunstância, o mais feio subproduto do nosso dualismo, um dejeto com o qual nem mesmo os neoconservadores sabem como lidar. Fernando Henrique, em pânico pelo retorno às armas, que o diga, mas tem sido ele um dos respondáveis por atear fogo no lixo que anda solto por aí.

(1) Neoconservadorismo e modernidade inacabada. Antonio Ianni Segatto e Felipe Gonçalves Silva. In Jürgen Habermas. A nova obscuridade. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
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