domingo, 18 de outubro de 2015

Playboy: nossas tias, primas e vizinhas deixam a cena

Exposição ousada e insinuante do corpo feminino compôs
o jeito moderno do Renascimento: se Botticelli o fez com a Primavera, 
por que não o fariam os fotógrafos da Playboy?
E, no entanto, tudo isso veio embrulhado num conservadorismo disfarçado - como o próprio Talese se encarrega de comprovar - que apenas liberava as forças da libido que a sociedade industrial remexeu. No universo do consumo de massa, com os apelos publicitários sensuais que se transformaram no atributo espetacular das mercadorias, tudo é fetiche, tudo é posse e prazer. As fotos da Playboy revelaram isso de forma genial porque enquadravam o desejo nos limites do que a imaginação permitia sem que ela própria (a imaginação) transgredisse as máximas morais do conservadorismo. 

Parece complicado, mas não é. Talese mostrou nos leitores táteis de todos os tempos da Playboy, uma maldade obsessiva e pueril que todo mundo tem pelo universo da sensualidade. Como disse um dos diretores da revista, é o nosso lado "12 anos" que está lamentando a retirada do nu feminino das próximas edições da revista. São as nossas tias, primas e vizinhas que estão saindo de cena e isso não tem nada a ver com o suposto "sexismo" da revista como a "politicamente correta" Folha de S. Paulo quis demonstrar (leia aqui).

Dia desses li numa entrevista com o escritor espanhol Javier Marías que a internet pôs a imbecilidade em evidência. Penso que não foi só isso: a rede desfez o segredo; ela conta tudo para todo mundo o tempo todo, e o erotismo, nesse caso, se vulgariza, assume as desproporções disponíveis no tumblr... Hugh Hefner, com o seu jeito cafona de andar pela casa com um pijama brilhoso é um cara de bigodinho aparado que a gente imagina assoviando nas esquinas para as mulheres bonitas. O tempo dele acabou junto com a malandra inocência da Playboy. Que graça freudiana pode ter o recato de uma moça que passa o tempo todo praticando o selfie consigo mesma? Eugênio Bucci diz no Aliás que a nudez da revista morreu de overdose. Acho que sim...

Outras matérias sobre o fim da nudez na Playboy: * 'Playboy' dos EUA deixará de publicar fotos de mulheres nuas (Folha) * Nos EUA, Playboy abandona a nudez (Pressreader) * Adeus mamilos: por influência da internet, Playboy abandona de vez a nudez (Ao quadrado) * Playboy deixa site mais comportado nos EUA (Meio e Mensagem). 

Para uma interessante abordagem sobre a variedade de comportamentos em torno dos "estilos de vida" que a revista inspirou, sugiro o filme Star 80, de Bob Fosse, de 1983. Trata-se de um thriller muito bem feito pelo diretor de Cabaret inspirado na história real do assassinato da coelhinha Dorothy Stratten, por seu marido, em 1980.
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