terça-feira, 24 de novembro de 2015

Um dano irreparável para o ensino da História

Comuna de Paris, 1871? Nada disso: a greve geral em São Paulo em 1917. Mais de 10 mil operários contra as fábricas das Mooca e do Ipiranga por melhores condições de trabalho. Esse movimento teria alguma coisa a ver com a Comuna? Tudo, exceto na cabeça dos caras que formularam a proposta do novo programa de História para o ensino médio.
Eis aí toda a atualidade, toda a riqueza, toda a complexidade e toda a pedagogia da História. Na verdade, é a História que oxigena a esfera pública como elemento referente da formação intelectual e com os sentidos postos nos processos sociais universais. Teria a Comuna de Paris algo a ver com a eclosão de movimentos conservadores na América Latina ou com o anti-republicanismo e anti-abolicionismo no Brasil? Ou se trata de um episódio cuja razão é exclusivamente eurocêntrica e a luta de classes não passa de um refinamento conceitual abstrato da filosofia alemã?

Parece que essa dialética toda que preenche nossa compreensão sobre o universal e o particular, sobre as identidades sócio-culturais que se constróem à margem da significação localizada - ou apesar dela - não faz parte da inteligência dos "especialistas" que estão propondo a nova base curricular de História para o ensino médio. Podemos ter que sair daquilo que esse pessoal chama vulgarmente de "visão europeia" - organizada como uma centralidade - e entrar arbitrariamente em cena com uma "visão periférica" - a ser organizada como um protagonismo descentralizado, como se isso fosse possível, esse divórcio mecanicista que só vai entrar em cena como acessório, como complemento...

Há duas ou três explicações para a proposta. Uma delas é a dos proponentes, que me parece obedecer uma orientação ideológica que já foi apontada por Renato Janine Ribeiro assim que ele deixou o MEC (leia aqui), mas uma orientação ideológica pedestre, utilitarista e funcionalista, não propriamente uma articulação conceitual e ontológica. Se os proponentes imaginam que sairá desse ensino um estudante melhor capacitado a entender as contradições sociais, podem esperar sentados.

A segunda advém mesmo de uma deficiência latente que os proponentes do novo currículo têm do ponto de vista teórico-metodológico sobre a História. Qual é a corrente de pensamento que advoga essa perspectiva segmentada que sugere uma hierarquia de causalidade que dispensa a compreensão sistêmica do processo histórico? É possível entender toda a integralidade constitutiva das sociedades africanas sem que elas sejam vistas do ponto de vista de sua interação contraditória e conflituosa, por exemplo, com o caráter expansivo e complexo do capitalismo comercial?

A terceira não está ligada propriamente à desastrada proposta feita por essa comissão - se é de comissão que se trata - mas de um viés da crítica que envolveu os impagáveis coordenadores pedagógicos das escolas - particulares, diga-se - que servem de referência para a apuração que a imprensa fez sobre o tema: a proposta é ruim porque não prevê o que a Fuvest pede, é o conteúdo essencial dessa crítica. De jornalistas que raramente sabem do que estão falando quando o assunto é Educação, pode-se imaginar que a Fuvest seja mesmo vista como a instituição que fixa os parâmetros do projeto pedagógico do país, mas de "coordenadores" esperar um tal nível de desorientação... A proposta é ruim porque ela peca gravemente contra a formação intelectual do estudante, só por isso, e esse é um assunto sobre o qual a Fuvest entende muito pouca coisa.

Tomara que o MEC não referende isso.

* Leia também A abolição da História (Demétrio Magnoli)
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