sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Conteúdo patrocinado: Jornalismo doente


Dentre as outras variáveis, uma me parece ocupar um papel definidor das dificuldades atuais: a perda de referência doutrinária que a prática jornalística passou a viver em razão das dificuldades de natureza empresarial, especialmente sob o impacto da concentração econômica sob a qual os grupos de mídia vivem. A ideia de que seria possível sustentar o Jornalismo como uma atividade prestadora de serviços, de pouca - ou eventualmente nenhuma - ambição noticiosa, pode ter sido o elemento que o fez perder os valores de credibilidade e de respeitabilidade que o vincularam à sociedade durante todo o longo processo de modernização paralelo à emergência e ao crescimento do capitalismo.

Jürgen Habermas já havia atentado para isso quando escreveu sua obra principal - Mudança estrutural da esfera pública -, mas os indícios de que a natureza privada do capital desviaria a imprensa de seus compromissos históricos nem de longe haviam chegado ao estágio a que chegaram nestas duas primeiras décadas do século XXI. 

Não é difícil entender essa transformação radical. Qual é a credibilidade de que um jornal pode desfrutar quando incorpora à sua produção pautas patrocinadas por empresas que já foram objeto de suas própria denúncias? O exemplo que apresento aqui é o dos "especiais" do jornal O Estado de S. Paulo cujo conteúdo é "patrocinado" pela empresa Siemens sob o slogan O Brasil que o Brasil quer, uma série de "matérias" de forte conteúdo ideológico que associa à imagem do jornal, de forma incontornável, a própria imagem da empresa patrocinadora, naturalmente com objetivos disfarçadamente jornalísticos, mas na essência, com propósitos claramente promocionais. Por que?

Porque a Siemens, ao lado da CAF do Brasil, Bombardier e Alston, integra o grupo de empresas acionadas pelo Ministério Público de São Paulo pela fraude de R$ 1 bilhão na venda de trens para o Governo do Estado. As denúncias, todas reproduzidas no blog do jornalista Fausto Macedo, estão entre as mais graves já feitas sobre os interesses privados nacionais e estrangeiros que atuam no Brasil como verdadeiras facções criminosas, possivelmente só ultrapassadas pelas empreiteiras da Lava Jato. Como pode um jornal associar-se a esse tipo de patrocínio na produção de seus "especiais"?

Guardadas as proporções, é como se a Vale do Rio Doce - ou sua subsidiária, a criminosa Samarco, passasse a subsidiar os jornais que estiveram fortemente envolvidos nas denúncias das causas que provocaram o soterramento da cidade de Mariana em consequência do rompimento das barragens sob sua responsabilidade.

Penso que reside nesse complexo relacionamento espúrio a essência da crise do Jornalismo, embora as empresas que o produzem nesse arremedo do que um dia fizeram, não conseguem muito mais do que reiterar o divórcio que sua atividade tem com o que um dia foi uma instituição de representação política plural e democrática.

Leia ainda: * Inquérito sobre cartel de trens de São Paulo está parado há um ano (Folha) * O suicídio do Jornalismo (Sylvia Moretzsohn) * O jornalista empreendedor (Michelle Roxo) * Morrem os jornais, surgem as marcas jornalísticas (Carlos Castilho) * O Estadão tem um grande passado pela frente (Leandro Beguoci).
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