quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Desprivatizar o Brasil

Toda a lógica do capital
 na tira de Calvin and Hobbes
São dois exemplos que nos servem de metodologia para o entendimento da natureza da crise brasileira mas que estão bem longe de conseguir representar a condição de reféns em que Estado e Sociedade vivem: trata-se de um processo sistemático de transferência de renda que confina a estágios sempre menores a capacidade de investimento em setores relevantes para a vida nacional. 

Uma matéria da Folha de S. Paulo mostra como isso se transformou em elemento estruturante da ação governamental: imaginando que pudesse estimular o crescimento econômico através da renúncia fiscal, Dilma Rousseff terá brindado os empresários até o final do seu governo (em 2018) com a soma de R$ 458 bilhões em desonerações (R$ 116 bilhões só em 2016) - fato que responde pelo déficit primário que desequilibra todo o funcionamento da economia. Em resposta a esses privilégios o que houve foi uma retração de investimentos que culmina agora no péssimo desempenho do PNB. Em outras palavras: os beneficiários da crise foram os que a criaram. O símbolo dessa armação é o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, uma espécie de líder do parasitismo do empresariado brasileiro.

O resultado desse contexto é um país inviabilizado pois não há nenhum elemento dinâmico capaz de retomar os estímulos que permitam à economia dar sinais de vitalidade. Não é por outro motivo que o Brasil é visto hoje no cenário internacional como um país em liquidação: em 2015, chegou a 51% a proporção de S/As estrangeiras que participaram transferências de empresas nacionais para o exterior. Para 2016 esse percentual deve chegar a 55% (leia aqui). É um círculo mais que vicioso: essa desnacionalização progressiva cobra o preço anual da remessa de lucros - um processo secular de sangria dos recursos nacionais que o Brasil sofre desde a época colonial: só nos últimos dois anos foram US$ 52 bilhões enviados a outros países que acabamos por irrigar com nossos recursos. Uma ironia que os neoliberais têm vergonha de reconhecer. 

O Brasil precisa ser desprivatizado de ponta a ponta pois que a perda da soberania do Estado sobre os rumos da economia nos condiciona a um processo de desarticulação social e política com consequências dramáticas a médio prazo. 

Sugestões de leituras: * Vale saca US$ 3 bi de crédito rotativo e usará parte do dinheiro para amortizar dívida * A irracionalidade por trás do aumento das passagens STJ nega liberdade a Marcelo Odebrecht * Mensagens revelam relação espúria de Cunha com empreiteiros, diz MPF  * Governo edita MP para regulamentar acordos de leniência * Em email, dono da Odebrecht relata conversa com Lula * Moro reage a advogados e diz que ‘processo marcha para frente’ *Adams diz ser contra anistia a executivos * A festa acabou * Impostos: quem paga o pato não é a Fiesp * Exportações superam importações e Brasil tem superavit de US$ 19,7 bi - 04/01/2016 * Governo acaba com 'Bolsa Empresário' e fica com dívida de R$ 214 bilhões  *  ‘O BC no Brasil estrangula a economia’ *Vale tenta livrar Samarco de pagar multa de R$ 2 bilhões *Consultoria encontrou trincas em barragem em MG 14 meses antes de desastre * Governo aceita negociar com Samarco reparação de R$ 20 bi para o rio Doce * União e Estados dão 15 dias para que Samarco deposite R$ 2 bilhões * Metrô de SP rompe contrato e monotrilho da Linha 17 é suspenso.
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