quinta-feira, 19 de maio de 2016

Temer e sua turma colocam o Brasil na iminência de um confronto civil

Zdzislaw-Beksinski 5
Veja-se, por exemplo, o caso de José Serra, um sujeito obsecado pela ambição de ser Presidente da República algum dia. Já foi derrotado mais de uma vez, mas não se conforma. Pressionou o que restava de dignidade no PSDB a fim de aproximar o partido do PMDB e, tal como Aécio, é motivo de chacota pelo papel de eternos coadjuvantes de outras personalidades. Ambos aparecem no cenário como aduladores. Pois bem, Serra contentou-se com o Itamaraty - pasta que no quadro geral do poder tem pouca importância, embora o novo "ministro" agora faça de tudo para dar-se o significado oposto, inclusive concedendo passaporte diplomático a pastor suspeito de corrupção.

O resultado é ofensivo à inteligência porque Serra simplesmente não sabe o que está fazendo na chancelaria brasileira, não é da área e entende tanto de relações internacionais quanto Eduardo Cunha de honestidade. Suas 2 primeiras ações - o repúdio ao isolamento em que o golpe colocou o Brasil e seu discurso de posse - são dois momentos de uma mediocridade infinita, uma fraseologia retrô, tipo Guerra Fria; um apelo inócuo ao sentido apartidário do Ministério (justamente o Itamaraty que sempre se caracterizou por sua independência em relação aos governos). Tem sido um desastre... Se Serra participar hoje de algum foro internacional para discutir qualquer coisa, temo que seja vaiado sem piedade... e o prejuízo não diz respeito ao desprestígio diplomático do Brasil, mas à redução de suas potencialidades geopolítica e econômica, ou o "ministro" imagina que o reconhecimento de Macri, da Argentina, é suficiente? Até agora, como era de se esperar, só a mídia conservadora é que viu virtudes nas manifestações do "chanceler" e se excitou com a posição dos EUA invariavelmente simpáticos a ditaduras.

Mala: Serra não é exatamente uma personalidade
que cria mística e empatia em torno de si e do que faz.

Não é, no entanto, um modo isolado de ação desse embuste inaugurado por Temer, mas uma modulação. O "ministro" da Saúde, um cara de nome Ricardo Barros, saiu-se com duas pérolas: a redução do tamanho do SUS no atendimento da população e sua disposição em deixar à própria sorte o usuário dos planos de saúde: "ninguém é obrigado a contratar plano. Não cabe ao ministério contratar isso", disse o sujeito referindo-se à sua determinação de não fiscalizar a qualidade dos planos. Dizem que Barros está onde está por pressão das operadoras, todas elas interessadas em acabar de uma vez por todas com o atendimento público... É possível, mas certamente tem o apoio de represetantes da mídia especializada na área: para a jornalista Cláudia Collucci, "em saúde, não é possível dar tudo para todos", texto no qual ela recomenda que se fale abertamente sobre a possibilidade de adotar no setor um critério seletivo... Ou seja, uns morrem outros não.

A lista é imensa, mas nada que se compare à discriminação visível ocorrido por conta da já bastante denunciada ausência de mulheres no ministério, fato acrescido das diversas negativas que Temer ouviu de personalidades que se recusaram a aceitar o convite improvisado. Some-se a isso a arbitrária intervenção de Temer na EBC, uma emissora de caráter estatal e não governamental contra a qual o golpista cometeu um crime imperdoável.

Dia desses, ao tentar explicar o conjunto de fatos que levaram à queda da ditadura militar em meados dos anos 80, ressaltei que ocorreu naquela conjuntura uma convergência de fatos que minaram as bases sociais, políticas e econômicas do regime militar, o que configurou uma fragilidade insuperável de um governo alicerçado na força das armas. Com Temer não acontece o mesmo, naturalmente, mas é surpreendente o isolamento contrastante com o foguetório ensaiado quando Dilma foi afastada, e é possível afirmar com alguma segurança que, até agora, o governo golpista não aglutinou ao seu redor senão contrariedade e decepções, dos empresários aos trabalhadores, dos setores tradicionalistas da nossa elite aos setores agora indignados da classe média, como se pode perceber nas matérias selecionadas abaixo.

Tenho comigo a convicção de que o governo golpista de Temer é balão com uma tênue capa de resistência aos solavancos que vai construindo ao redor de si. Uma pressão prolongada sobre ele, uma eventual marcha multitudinária e ocupações dos espaços do poder, certamente retira-o de onde está.

Confira o desastre Temer: * Cunha, o amigo oculto do presidente (Bernardo Mello Franco, Folha) * O que o novo 'centrão" e por que o grupo é decisivo para Temer (El País) * André Moura, novo líder do Governo na Câmara, expõe Temer como refém do "baixo clero"(El País) * Quem é o general nomeado por Temer? (Blog do Miro) * Considerado o "homem de Cunha", líder do governo Temer na Câmara é investigado pela Lava Jato (Estadão) * Antiga oposição reage à indicação de Moura para líder do governo e já fala em entregar ministério (Estadão) * Novo líder é investigado por assassinato (Estadão) e responde 3 processos no STF ((Folha) * Reforma da Previdência só para quem entra no mercado é má sou solução, diz Meirelles (Folha) * Empresários sugerem que Temer faça mal rápido e bem aos poucos (Folha) * Temer convoca centrais sindicais [menos a CUT e a CTB] para discutir reforma da Previdência (Estadão).
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