quarta-feira, 29 de junho de 2016

Inércia em água morna

A inércia e o impacto
Rola um clima do tradicional e brasileiríssimo "deixa pra lá" diante da possibilidade de que Temer e sua quadrilha se efetivem no cargo ou é só uma impressão provocada por esses dias tépidos do inverno tropical que amolecem o espírito e o rigor? Sei não... 

O discurso dos golpistas é o esperado: reajuste do bolsa família midiaticamente elevado, queda do dólar, aumento do desemprego, coerência da política de juros ditada pelo Presidente do Itaú... ops! quero dizer, pelo presidente do Banco Central etc. No fundo desse disfarce, o que nos espera é a desregulamentação dos direitos sociais e do trabalho, uma onda de privatização que transfere o patrimônio nacional para os interesses do capital, um desleixo violento com a coisa pública e um descontrole das práticas de corrupção, além da desativação ou pauperização dos serviços sociais. O interino nem disfarça mais: assumiu abertamente a defesa de Eduardo Cunha na Câmara, pouco se importando com o que possam pensar dele os senadores que vão decidir o futuro dos milhões de votos que Dilma Rousseff recebeu ao se eleger Presidente da República. Aliás,  o encontro que tiveram no último domingo foi uma manifestação de absoluto desprezo pela ética. Com os senadores, no entanto, Temer não precisa se preocupar. Quem ler a coluna de Elio Gaspari na Folha de hoje (disponível aqui) vai entender o motivo: mesmo diante de consistentes evidências de que Dilma não cometeu o crime de que é acusada e que foram oferecidas à comissão do impeachmnent do senado pelos técnicos da própria casa (graças à decisão do ministro Lewandowski, do STF), a perspectiva é a de que a disposição política de afastar Dilma se sobrepõe a qualquer vício processual. Gaspar cita a senadora Rose de Freitas - que é líder do interinato no Senado: "Na minha tese - vocifera ela - não teve esse negócio de pedalada, nada disso. O que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar". Quer dizer, a senadora, cuja estupidez escapa à dignidade de seu cargo, sugere uma lógica jurídica infernal: Dilma começou a ser julgada no exato momento em que trouxe contra si a predisposição de quem nunca a quis no governo, e nem o constrangimento de sua inocência vai alterar isso, como se a inocência se prestasse a constrangimentos e não a culpa.

O fato concreto é que o clima de cinismo que vai tomando conta dos senadores é avassalador. Romário, por exemplo, deixou de lado o charme da sua coerência quando lida com as questões do esporte e justifica seu voto pelo impeachment com o argumento típico de quem disfarça a falta ou pênalti: disse que vai votar levando em conta o sentimento popular que quer Dilma fora do governo. Onde é que ele foi buscar isso? 

Marta Suplicy, que não sabe onde se esconder para não receber cobranças sobre sua incoerência, foi pega pelo jornal El País para uma entrevista (leia aqui). Saiu-se com uma obra prima do pensamento político: "meu voto pelo impeachment não é relevante para o eleitor da periferia". Em meio ao constrangimento de explicar por que, Marta diz-se satisfeita com o clima que vive no PMDB, um partido que lhe permite realizar tudo o que caracterizou sua vida de militante ("Eu me muito acolhida. [...] Tudo o que eu acredito, ali tem espaço..."). 

Elio Gaspari, no entanto, deixando de lado as gentilezas com essa turma, disse com todas as letras: é golpe, e isso deixa o processo de afastamento de Dilma igual aos processos de cassação de mandatos da época da ditadura militar quando, fosse qual fosse a argumentação da vítima, não havia jeito de salvá-la. Senadores e impetrantes do pedido de impeachmnent (inclusive a destemperada Dra Janaína Pascoal) vão cometer uma violência contra a democracia e as leis brasileiras - eventualmente com o assentimento do STF.

No varejo, é o que se vê. Temer, assustado com sua impopularidade que não para de crescer (já retirou a recomendação de urgência na aprovação do pacote anticorrupção proposto por Dilma) e às vésperas de ter que participar da cerimônia oficial da abertura das Olimpíadas - provavelmente o evento mais público da história do mundo - já avisou que não vai aparecer, certamente com o horror que lhe inspira uma vaia cósmica ao lado de Dilma. Para evitar interpretações maldosas, e a pretexto de adotar medidas de economia,  suspendeu todas as transmissões oficiais que se realizem fora de Brasília. Alguém acredita que seja esse o motivo? Temer quer ficar escondido... e só ainda não quer que o esqueçam, como disse Figueiredo, porque tem o rabo preso com os "compromissos" que assumiu com Paulo Skaf.

Nesse clima de dissolução ética em que Brasilia vive, está acontecendo mesmo aquilo que Dilma classificou como um "salve-se quem puder" inédito. O ministro Serra, que corre em pista própria em plena campanha presidencial, vai acertando seus apoios, venham de onde vierem. Por exemplo, exorbitando das normas severas com que o assunto é tratado no Itamaraty, concedeu passaporte diplomático ao mascate da fé R. R. Soares e à sua esposa, ambos da Igreja Internacional da Graça de Deus, sem qualquer justificativa para a distinção concedida ao casal de pulhas.

Tenho ouvido falar muito numa tese tão traiçoeira quanto ofensiva à consciência política da cidadania: se Dilma voltar, não consegue governar. Isso quer dizer exatamente o quê? Que Temer está conseguindo governar ou que o conseguiria caso fosse efetivado? Ou que a lógica neoliberal da sua equipe econômica poderia ser, afinal, implementada e, com isso, assegurar um agiornamento das práticas trabalhistas e econômicas do país acabando com essa condição anacrônica do nosso Estado do Bem-Estar Social?

Tenho a impressão que ainda vamos nos surpreender com essa extraordinária falta de caráter do que restou da nossa representação política. Duas notícias curiosas me chamaram atenção nesta 4a feira. A primeira: senadores que estiveram com Henrique Meirelles ficaram frustrados com a determinação do ministro em não facilitar na questão do reajuste do funcionalismo público - espaço onde os parlamentares cavam votos com o poder que têm de mexer em questões como essa. No final, ficou para os parlamentares a sensação de que estão sendo abandonados por um governo que nem é ainda governo pleno (leia aqui a matéria do Valor Econômico).

A segunda notícia é mais complexa pois diz respeito ao perfil econômico e social dos candidatos às próximas eleições - pleito que o ministro Gilmar Mendes já classificou como teste constitucional e que Fernando Abrúcio prevê como um termômetro capaz de medir o pulso político do eleitorado depois do "furacão" que o país ainda está vivendo. Segundo o jornal Valor Econômico, as novas regras de financiamento da campanha eleitoral vão favorecer os candidatos mais ricos em razão do sistema ilimitado de autodoação, sem chances para as velhas doações empresariais. A mudança pode reduzir o número de aventureiros que formam o baixo clero do Congresso e, com isso, alterar o poder de manobra de picaretas como Eduardo Cunha, por exemplo, neste caso fundamental para que Temer chegasse aonde está.

Eu quero que o impeachment não passe e minha expectativa é de que esse cenário fatalista reverta em favor da Democracia. Penso que essa seria a única forma de evitar que as perspectivas de um aprofundamento da crise dissolvesse o país e de assegurar um patamar mínimo de civilidade política a partir do qual fosse possível a realização de eleições gerais. Manter a expectativa de que a tepidez aconchegante dessa inércia golpista possa resultar em alguma coisa que não seja o caos me parece um equívoco.
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