sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Metástase

Lucifer (1947), Jackson Pollock
Para Rossi, a notícia de que a União Europeia vai implementar um programa de investimentos de € 50 bilhões, alguma coisa como 5% do PIB da Comunidade, deixa vulneráveis os argumentos de que a retomada do crescimento econômico só pode ser obtida com retração de recursos públicos e políticas recessivas, tais como essas que a estupidez do ministro Meirelles insiste em adotar no Brasil. Na Europa, a  notícia representa "uma guinada da sua política econômica que já foi adiada inúmeras vezes", como lembra o El País (leia aqui) e pode simbolizar o fim da hegemonia neoliberal anti-desenvolvimentista que norteia os planos econômicos desde 2008 - hegemonia contestada sistematicamente no terreno teórico e diante das evidências do que a austeridade significou para os países que a adotaram (confira). Se isso for verdade, os governos conservadores dos países periféricos, como o Brasil, ficam isolados. A favor de Temer e de sua gangue, só o FMI e os bancos brasileiros... 

A 2a perspectiva com a qual trabalho é a da crescente animosidade que segmentos sociais distintos, organizados e inorganizados, à direita e à esquerda, vêm demonstrando em relação ao estado de desorientação política que emerge diariamente no noticiário. Posso estar enganado, mas a percepção cotidiana da crise é a de que depois do desgastante golpe que afastou Dilma Rousseff do governo criou-se um tal vácuo de poder que o cenário hoje é o de absoluto descrédito no aparato institucional. Nem as palavras de ordem dos movimentos golpistas, nem os resultados conservadores que saíram das urnas em outubro, muito menos os apelos dos movimentos sociais têm sido suficientemente consistentes para estruturar a prática política e dar a ela alguma eficácia.

Os motivos devem ser muitos, mas um - em especial - me chama a atenção: a evidência de que o grupo que governa o país (à parte o fato de que se trata de uma quadrilha) não tem projeto algum... exceto o da supressão des direitos. A PEC 55 (ex-241) é posta em dúvida até mesmo por monetaristas ortodoxos e só um legislativo de aluguel (como é o caso do Congresso brasileiro) arrisca-se a aprovar um monstrengo que vai estagnar as áreas sociais do país - em benefício dos bancos - por 20 anos. O documentário abaixo, apresentado na rede pelo blog da cidania e que corre solto na internet, mostra bem as razões desse sentimento de frustração que predomina de todo o lado e que serve de munição para a radicalização do aventureirismo golpista de extrema-direita, a exemplo do que ocorreu com invasão do plenário a câmara nesta semana (veja aqui).


A 3a e última perspectiva decorre do alargamento do raio de ação da Lava Jato. Sei lá se por trás disso - como uma teoria conspiratória admite - há uma disposição de Moro em estressar de tal forma o cenário institucional que um golpe de estado soaria como um alívio para uma parcela extraordinária da opinião pública. O que é possível imaginar é que as evidências de uma metástase de corrupção generalizada cujo foco são os interesses privados do empresariado e que se espalha pela representação política desautoriza qualquer discurso do lugar de fala da sociedade política, a começar por esse verdadeiro boneco chamado Michel Temer (como o público pode constatar no programa Roda Viva). A prisão de Sérgio Cabral, de Garotinho, as denúncias contra Jucá (o líder do governo no Senado!), o comprometimento de Eliseu Padilha nas denúncias do duto de propina para o PMDB, as tentativas (simpatizadas pelo Planalto) de anistiar o caixa dois - tudo isso (como se pode ler nas matérias abaixo) forma uma pasta que sistematicamente põe à prova os processos de argumentação que ocupam a esfera pública e fazendo aumentar a sensação de estrangulamento da cidadania

O jornal Valor Econômico fala de uma nova maioria que se formou depois do golpe contra Dilma - um eixo formado por PMDB e PSDB com vistas às eleições de 2018: "uma coalização de centro-direita" cujo maior desafio é o de manter a unidade diante da obsessão que todos seus integrantes manifestam pela rotatividade das peças do jogo político. Acho que o jornal vê essas coisas que a mídia quer a todo custo criar para ancorar o país à deriva. Olhando de perto... é possível que não sobre ninguém.

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