terça-feira, 22 de novembro de 2016

Populismo: ainda o rescaldo da eleição de Donald Trump

Multidão que acompanhou o corpo de Vargas na praia do Flamengo, em 1954, mostra que o apelo populista pelas reformas sociais põe em xeque as estruturas do Estado. Esse é o motivo pelo qual o assunto é tratado de forma rasteira pela imprensa e o fenômeno é demonizado pela burguesia
A radicalidade que o populismo adquiriu em alguns casos motivou uma crítica sociológica de direita que via nela mais um processo de manipulação do jogo político do que propriamente uma construção de movimentos populares, o que na minha opinião deve ser o essencial na análise. Como diz Laclau (A Razão Populista, São Paulo: Editora Três Estrelas, 2013) a instituição do sujeito político - a emergência de uma subjetividade reivindicadora que o fenômeno arregimenta em torno de suas personalidades invariavelmente carismáticas e messiânicas - carrega consigo todos os déficits da representação (e nem poderia ser diferente), mas não se caracteriza por isso, senão pela emergência de um novo polo de poder, o poder das massas. Trata-se, portanto, de um processo que escapa à racionalidade clássica da democracia liberal. O populismo não é, na convulsão social que cria ao seu redor, um fenômeno democrático, mas a democracia formal, também não o é.

A dificuldade para entender todas as dimensões desse quadro, penso eu que reside no fato de que essa emergência das massas e sua condução populista não é um patrimônio político exclusivo dos partidos esquerda, de extração marxista ou socialista. É também um capital disponível e em estoque para os partidos que concebem a multidão como instância de representação em torno de um projeto total de poder que se ergue contra as fragilidades liberais, dos privilégios, das elites corruptas... tudo mais ou menos como Donald Trump tem conseguido sintetizar, embora não se tenha certeza de que possa controlar em razão das expectativas que cria. Essa me parece ser a razão principal que traz o populismo à cena da esfera pública.

Os bons jornais e sites contra-hegemônicos têm publicado excelentes matérias sobre o assunto (algumas indicados abaixo). A melhor dessas análises parece ser a que foi postada no blog do professor Reginaldo Nasser; um texto que ele produziu em parceria com Willian Moraes Roberto, texto cuja leitura eu recomendo (disponível aqui). É uma oportunidade valiosa para acompanhar a gravidade do quadro internacional que se cria com Trump na Casa Branca, além naturalmente de seus efeitos nos próprios EUA. Mas é também uma possibilidade extraordinária que se abre para o entendimento dos efeitos disso no Brasil cuja gravidade da crise já vislumbra o surgimento de nomes que empolgam as massas justamente porque estimula nelas uma racionalidade conservadora autoritária sistematicamente alimentada por uma elite que não sabe o que fazer com o golpe que desferiu contra a Constituição.

Sugestões de leitura: * A novidade da Lava Jato. Ataque ao modo de reprodução de patrimonialismo mafioso e neocolonial (Giuseppe Rocco, IHU) * Democracia exposta (Marcos Nobre, Valor Econômico) * O Populismo na política brasileira (Francisco Weffort, 1978, Rio: Paz e Terra) * O que será da democracia com a vitória de Trump? (VE* Ante a onda de populismo nacionalista (El País) * O demagogo que capitalizou a ira (El PaísPopulismo, o "novo normal" do século XXI (VE) * Presidente Trump: nada menos que uma revolução (VE) * Eleição de Trump expressa o ressentimento racializado e de classe nos EUA. Entrevista especial com Idelber Avelar (IHU) * Decepção da classe trabalhadora branca explicaria vitória de Trump (VE) * Análise: EUA expõem novo voto contra o establishment político (VE)
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