domingo, 26 de novembro de 2017

A encenação de uma farsa: a candidatura Huck

O risco que o conservadorismo de bom gosto corre
é o de levar ao Planalto um outro boçal, mas 
se isso
 servir para impedir a eleição de Lula, ora... por que não?

O que o Estadão fez foi criar uma não-notícia a partir da construção de um significado sobre um fato (uma pesquisa eleitoral) que não ocorreu - um supremo desprezo pela ética jornalística. Na crítica da mídia a criação de uma não-notícia tem tudo a ver com a pós-verdade e com o conceito de fake news, isto é, notícia falsa, uma coisa que não existe transformada em coisa que existe. Na verdade, estamos diante de um evento costurado de forma organizada que envolve artigos em colunas sociais, pequenas notas, dúvidas sobre as intenções efetivas de Huck em se candidatar e, sobre todo esse contexto, a permanência dele em plena campanha eleitoral ilegal no seu programa semanal da Globo). Até mesmo uma primeira pesquisa que aterroriza o leitor sobre os efeitos econômicos de uma possível vitória de Lula compõe a farsa de uma urdidura de gabinete (O lulômetro está de volta, de Bernardo de Mello Franco na Folha). 
Apostas do jornalismo de aluguel
colocam Huck ao lado do que
 há de pior na política brasileira

Penso que é esse o contexto que explica a aventura da ISTOÉ com o número deste fim de semana. A revista opera a síntese de um semanário, mas permite que o analista perceba como esses vários eventos de mídia se associam na capa da publicação (costumeiro espaço dos piores escroques da política brasileira) ao mesmo tempo em que reforça para o leitor uma expectativa em torno da disposição do próprio animador de auditório em se lançar candidato.

Luciano Huck não é um enigma em nenhum sentido: trata-se de uma opção das elites empresariais e do conservadorismo político para evitar a polarização eleitoral representada por Lula, indiscutivelmente o franco favorito para 2018. No bojo dessa articulação, no entanto, há um apelo que seduz segmentos da classe média "de bom gosto", o mesmo segmento que agora não quer Doria  nem pelas costas, mas com pruridos liberais e modernos que o afastam de um apoio à extrema direita (Bolsonaro), da direita evangélica (o Escola sem Partido), da direita corrupta (Aécio) e da direita inquisitorial (MBL), ou seja da direita bagulho (leia em Quem é o grupo que pode lançar Huck à presidência em 2018). O importante é impedir que Lula chegue lá, mas se for possível fazer isso com estilo... melhor.

Difícil mesmo é aguentar o próprio Huck, um garotinho cujas referências políticas e intelectuais não estão muito longe do penúltimo sucesso das séries de Tv. Do ponto de vista da sensibilidade que um candidato a presidente da República num país no fundo do poço para onde foi levado por Temer, o animador das tardes de sábado é um boçal, como asseguram todas as matérias que falam sobre ele ou onde quer que ele próprio tenha deixado algum vestígio verbal. Mas perto das alternativas que se tem, com esse ar apalermado de bom-moço angelical, incompetente para qualquer reflexão que ultrapasse a mera superfície dos fatos, um campeão dos lugares comuns, pensando bem... Huck está ótimo. Se não der certo, pensam os integrantes do grupo Agora, até o Temer serve...

Não deixe de ler outros textos sobre a aventura eleitoral do garotinho da Globo: * No rumo (Luciano Huck, na Folha) * Huck não passa de 11% de intenções de voto: leia em Luciano Huck recebe pesquisas mensais sobre 2018 (Estadão) * Estadão expõe Hulk ao ridículo com fake news sobre pesquisa (blog do Esmael) * Pós-verdade e ignorância histórica (Lira Neto, Folha)Dossiê Huck: não se deixe enganar nenhuma vez (do blog).
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